23
SET
2015

XXVI Domingo do Tempo Comum

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Ciúme invejoso: um falso zelo que escandaliza

olho-de-inveja

“Mestre, vimos alguém que não nos segue expulsando demônios em teu nome, e tentamos impedi-lo porque não nos seguia”. Esta reação de João, aparentemente cheia de zelo, manifesta uma atitude muito perigosa para quem decidiu seguir o Messias Jesus, isto é, um ciúme invejoso com aparência de zelo.
Essa perícope evangélica, quando lida no seu contexto mais amplo (Mc 7,24–10,52), nos ajuda a perceber o que estava para além das palavras do discípulo, porta-voz do grupo, indignado com pessoas que, não sendo dos seus, realizavam exorcismos em nome de Jesus sem a devida permissão. Um pouco antes dessa cena, encontra-se uma narração onde os discípulos passam por um vexame humilhante: um pai que leva o seu filho endemoninhado para que Jesus o liberte, mas os discípulos não conseguem realizar a expulsão (Mc 9,14-29), levando inclusive Jesus, indignado diante do insucesso, a acusá-los de falta de fé.

Diz a expressão popular: “A inveja é consequência da incapacidade”, e isto tem muito de verdade nessa reação de João. Sem dúvida, tal reação intolerante dos discípulos denuncia um sentimento rancoroso diante do próprio insucesso e incapacidade de realizar aquilo que eles mesmos tinham recebido do próprio Jesus aos serem escolhidos: “E constituiu os doze… Para enviá-los a pregar e terem autoridade para expulsar demônios” (Mc 3,13-15). O poder tinha sido dado, mas lhes faltava a fé.

Diante da consciência da incapacidade de realizar algo desejado, o ser humano pode escolher umas das possibilidades: ou aceitar e empenhar-se no crescimento das suas reais capacidades, ou tentar negar a sua incapacidade, alimentando um sentimento de inveja, cujo intuito é rejeitar, desqualificar e até mesmo impedir a expansão das capacidades alheias. Contudo, pior do que sentir-se incapaz de realizar algumas coisas, é ser incapaz de reconhecer as capacidades do outro. Pessoas assim se compensam assumindo duas posturas fundamentais. Há aquelas que sendo detentoras de alguma autoridade ou poder, usam dessas prerrogativas para impedir (proibir) que o outro realize suas capacidades e potencialidades; há também aquelas que, por sua vez, não tendo nenhum poder coercitivo para compensar seu mal-estar diante do sentimento de incapacidade, apelam para avaliações sentimentais que desqualificam, menosprezam e desprestigiam as capacidades dos outros.
No caso do evangelho, fica claro que os discípulos apelam para uma espécie de credencial presumida, pensam-se autorizados para tal procedimento, pois apenas depois do ocorrido é que comunicam ao Mestre o que fizeram. Tinham acabado de ouvir o ensinamento de Jesus: “Se alguém quer me seguir…” mas ainda teimavam em ocupar o lugar do Mestre, como fica evidente na reação de Pedro quando tenta, passando à frente de Jesus, ditar-lhe a direção que devia tomar (XXIII Domingo do Tempo Comum). Ou mesmo quando os discípulos se perguntam quem é o maior dentre eles, excluindo, por conseguinte, Aquele que é o unicamente maior (XXV Domingo do Tempo Comum). Na verdade, o chamado é para seguir Jesus e não os discípulos.
lobo-em-pele-de_cordeiro_400x400O ciúme invejoso compromete o autêntico seguimento do Messias Jesus, pois é sinal de falta de fé e, consequentemente, causa de queda (escândalo) para os que estão sendo iniciados (pequeninos) no caminho do seguimento. Esses, mesmo não tendo ainda aderido plenamente a Jesus, sentem-se atraídos por Ele, pois não se opõem nem a Ele nem ao evangelho: “Quem não é contra nós é a nosso favor”. Porém, se escandalizam quando se sentem impedidos de prosseguir no caminho de adesão a Cristo por causa da intolerância daqueles que se sentem os únicos destinatários da salvação.

Diante dessa intolerância de quem pensa ser zeloso ou piedoso, o Mestre faz o grande apelo de conversão que, por sua vez, exige coerência com o seu ensinamento e vida: “Quem quiser salvar a sua vida, vai perdê-la; mas quem a perder por causa de mim e do evangelho, vai salvá-la” (XXIV Domingo do Tempo Comum). A perda necessária para ganhar o essencial definitivo é ilustrada agora por Jesus apelando para a perda, se necessária, de três partes do corpo que temos sempre de dois (mão, pé, olho). Talvez gostaríamos de fazer uma atualização mais aguda, que indicasse uma conversão mais radical, ao invés de cortar uma mão ou um pé, ou arrancar um olho, sugeriríamos cortar a língua ou arrancar o coração. Porém, Jesus não quer indicar fundamentalisticamente a mutilação de partes do nosso corpo, mas desafiar-nos a tomar decisões radicais na vida: ou somos seus discípulos, evitando escandalizar os outros e a nós mesmos, ou somos seus adversários (satanás). Mais uma vez apresenta-se a necessidade de seguir o Mestre cujas mãos tocavam os doentes para curá-los, abençoá-los, erguê-los, cujos pés jamais se afastaram do caminho da obediência ao Pai, e cujos olhos estiveram sempre atentos ao modo de o Pai falar através de fatos da vida e jamais foram contaminados com preconceitos e superficialidades, pois não via apenas a aparência, mas a totalidade de tudo e de todos.

1044_thqifPor conseguinte, “se tua mão te escandaliza, corta-a”: se a nossa práxis (mão) não é instrumento da ação de Jesus, é preciso convertê-la; “se teu pé te escandaliza, corta-o”: se o nosso caminhar (pé) não é seguimento de Cristo e não se torna ajuda para que outros também se encaminhem para Ele, é preciso convertê-lo; “se teu olho te escandaliza, arranca-o”: se o nosso olhar (olho) não nos permite enxergar os sinais de Deus na vida, se não nos ajuda a fazer a leitura dos acontecimentos para perceber neles os grandes apelos de Deus, é preciso convertê-lo.

Como na nossa existência se apresentam sempre duas possibilidades fundamentais de direcionar a vida, e cabe a nós fazer a escolha, é imprescindível um modo de agir (mão), uma perspectiva de visão (olho) e uma maneira de caminhar (pé) mais coerentes com o ser discípulo do Messias Jesus. Caso contrário, nossa ação será destruidora, nosso olhar será turvo e nosso caminhar, sem direção. Consequentemente, tudo acabará na Geena (grande lixão de Jerusalém onde o fogo não se extingue e o verme não morre: 2Rs 23,10), símbolo da destruição da nossa incapacidade que, por ciúme invejoso, não permite aos outros fazerem desabrochar suas capacidades, e do nosso remorso de termos escandalizados, por falta de fé, os pequeninos, em nome de um falso zelo pelas coisas do Reino.

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Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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  1. Michael Reply

    Que as consequências das nossas escolhas, instigadas por um puro coração, nos leve à imitação daquele que nos ama.

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