06
JAN
2016

Batismo do Senhor

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Batismo do Senhor (Lc 3,15-16.21-22)
O Eterno mergulha na história

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ
A Festa do Batismo do Senhor, concluindo o ciclo epifânico do Natal, é, ao mesmo tempo, porta de entrada para o Tempo Comum. Tempo sumamente rico do ponto de vista didático e mistagógico, pois nos conduz, a partir da leitura continuada dos evangelhos (ciclo dominical e ferial), ao conhecimento mais aprofundado da Pessoa de Jesus. Portanto, o Tempo Comum não pode ser concebido nem vivenciado como algo sem muita importância (“comum”), pois sem ele, a densidade teológica do Advento-Natal e a vivência desafiadora da Quaresma-Páscoa se esvaziariam. Estes seriam apenas momentos isolados, parênteses inseridos artificialmente no horizonte litúrgico que, por sua vez, não serviriam senão de entretenimento diante da monotonia do ritmo ordinário-comum.
No esquema original da pregação (kerigma) dos Apóstolos, o batismo de Jesus é o primeiro acontecimento a ser evocado: “Vós sabeis o que aconteceu em toda a Judeia, a começar pela Galileia, depois do batismo pregado por João” (2ª Leitura). Por isso, é apresentado como o início de sua vida pública, de sua missão como ungido (Cristo) de Deus e Salvador da humanidade. Cada evangelista, de acordo com a sua respectiva intenção teológica, sublinha aspectos diferentes deste acontecimento, o que não significa que incorram em contradição. Mateus, através do diálogo entre Jesus e o Batista, evidencia que o Cristo é aquele que cumpre toda a justiça: “Deixa estar por enquanto, pois assim nos convém cumprir toda a justiça. E João consentiu” (Mt 3,15). Marcos, de forma sucinta e direta, mostra que com Jesus a obra de Deus é recriada; reabre-se o paraíso e toda criação é reconciliada: “Vivia entre as feras e os anjos o serviam” (Mc 1,13).

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A novidade de Lucas é reconhecida em três aspectos inusitados presentes na sua narração. Antes de tudo, de forma muito sutil, o evangelista coloca João Batista ausente explicitamente da cena. Narrando o batismo de Jesus logo depois de ter dito que Herodes tinha posto João Batista na prisão, faz pensar que o precursor, àquelas alturas, já havia encerrado a sua missão de batizador (Lc 3,19-20). Em coerência com tudo aquilo que o próprio Batista havia dito de si e do Messias: “Mais forte do que eu e cujas sandálias não sou digno de desatar”(Lc 3,16), e para banir a dúvida do povo que já estava pensando que o Batista era o Cristo, Lucas emoldura o seu quadro de tal forma que apenas um personagem domine toda a cena. Desta forma, o batismo de Jesus não é simplesmente um rito de penitência, ou um importante gesto de condescendência do Santo de Deus, que quis se solidarizar com o povo pecador, mas este fato reveste-se de caráter epifânico, pois é verdadeira revelação trinitária.

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A cena histórica do batismo nos remete a um momento fora da história no qual o Pai, pela força do Espírito Santo, gera o Filho: “No princípio era o Verbo e Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus” (Jo 1,1). Se este mistério não é suscetível de datação e localização, a condescendência de Deus nos faz participantes desse inefável mistério quando o Verbo feito carne, no Jordão, é batizado. A manifestação visível e histórica desta realidade invisível e eterna é qualificada por Lucas com um “hoje”. Isto porque o tempo das promessas (ontem) passou: “Cumpriu-se o que o Senhor havia anunciado pela boca dos santos profetas: a salvação que liberta dos inimigos” (Lc 1,70s). Não há mais razão para expectativas futuras, pois Aquele que é a imagem do Deus invisível mergulhou na história, e nós vimos a sua glória (Jo 1,14).
Por fim, um outro aspecto próprio de Lucas é a afirmação de que no momento em que “Jesus foi batizado, Ele achava-se em oração”. Um tema presente em toda a literatura lucana (Evangelho e Atos). Jesus é o Filho orante, pois esta é a experiência que mais revela e fortalece a sua comunhão com o Pai. Para não cair na tentação do sucesso, “permanecia retirado em lugares desertos, e orava” (Lc 5,16). Não escolhe os seus colaboradores sem antes reafirmar a sua missão junto do Pai: “Foi à montanha para orar, passou a noite inteira em oração a Deus. Depois que amanheceu, chamou os discípulos e dentre eles escolheu doze”. O seu permanente estado orante permite aos discípulos constatar quem Ele é: “o Cristo de Deus” (Lc 9,20). Paralelamente à cena do batismo, temos o momento da Transfiguração sobre o monte da oração: “Tomando Pedro, Tiago e João, Ele subiu à montanha para orar… E enquanto orava, transfigurou-se” (Lc 9,28.29). A sua vida orante atrai e desperta nos discípulos o desejo de orar: “Estando num certo lugar, orando, ao terminar, um dos seus discípulos pediu-lhe: ‘Senhor, ensina-nos a orar…”(Lc 11,1). Porém, não apenas os ensina a orar, mas ora por eles: “Simão, orei por ti, a fim de que tua fé não desfaleça” (Lc 22,31-32). E na hora decisiva de testemunhar que era o Filho amado e obediente de Deus: “Afastou-se e, dobrando os joelhos, orava: Pai… E orava com mais insistência ainda” (Lc 22,41.44).

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A oração para Lucas é a condição necessária para que o Espírito Santo seja o protagonista do batismo definitivo, superior àquele administrado pelo filho de Zacarias. O Rio Jordão é apenas símbolo daquele rio que nasce no paraíso e a ele conduz, pois o batismo cristão é verdadeiro mergulho na Trindade. A oração é a experiência que prepara para o batismo daqueles que serão as testemunhas do ressuscitado: “Todos, unânimes, eram assíduos à oração com algumas mulheres, entre as quais Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele” (Atos 1,14). Mas é também a característica dos que vivem com fidelidade a sua nova realidade de batizados com o Espírito e fogo: “Eram assíduos aos ensinamentos dos apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações” (At 2,42). Sem a oração, o batizado tornar-se-á galho seco, pois lhe faltará a água da vida, na qual um dia foi mergulhado a fim de ser conduzido pelo Espirito à bem-aventurança eterna garantida “àqueles que lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro” (Ap 7,14), cujo batismo é o anúncio.

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peandrePe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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