13
JAN
2016

2º Domingo do Tempo Comum

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2º Domingo do Tempo Comum (Jo 2,1-11)
Um matrimônio consumado na cruz

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

São João Paulo II, ao inserir os Mistérios da Luz na oração do Rosário, chamou-nos atenção para alguns acontecimentos basilares da vida pública de Jesus que possuem um caráter particular de revelação do seu Mistério: “Cada um destes mistérios é revelação do Reino div

ino já personificado no mesmo Jesus. Primeiramente é mistério de luz o Batismo no Jordão. Aqui, enquanto Cristo desce à água do rio, como inocente que Se faz pecado por nós (cf. 2Cor 5,21), o céu abre-se e a voz do Pai proclama-O Filho dileto (cf. Mt 3,17 par), ao mesmo tempo que o Espírito vem sobre Ele para investi-Lo na missão que O espera. Mistério de luz é o início dos sinais em Caná (cf. Jo 2,1-12), quando Cristo, transformando a água em vinho, abre à fé o coração dos discípulos…” (Carta Apostólica ROSARIUM VIRGINIS MARIAE, 21).
Numa perspectiva semelhante, a liturgia do Tempo Comum (C) se abre justamente, após a celebração do Batismo do Senhor (1º Mistério da Luz), com a proclamação do Evangelho das Bodas de Caná (2º Mistério da Luz), que no pensamento teológico do evangelista São João é uma chave de leitura de todo o seu evangelho.
Evocando dois temas fundamentais, isto é, a Criação e a Aliança, o Sinal das Bodas de Caná é apresentado como fundamento (grego: arché, princípio), a partir do qual todo o IV Evangelho se desenvolve. Em Jesus, toda a criação se renova: “Pois tudo foi feito por meio dele…” (1,3), é Ele quem estabelece a nova e eterna aliança cuja consequência é a paz, fruto da sua paixão, morte e ressurreição: “Pondo-se no meio deles, disse-lhes: ‘A paz esteja convoco’” (20,19).
Para além do aspecto histórico do acontecimento de Caná, interessa ao Evangelista e, naturalmente a nós hoje, a mensagem subjacente à narração: Jesus, com a sua morte e ressurreição, é o verdadeiro esposo que dá a vida pela sua amada. Portanto, nas Bodas de Caná se anunciam as núpcias que se realizarão na cruz. Algumas evidências literárias e temáticas confirmam a relação estreita que existe entre Caná e Calvário.

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“No terceiro dia”, expressão que nos remete automaticamente ao dia da ressurreição de Jesus. Evidentemente falar de ressurreição implica uma referência à sua morte que aconteceu três dias antes. Portanto, o evangelista nos dá o enquadramento de ambos acontecimentos. Em Caná, portanto, se anuncia a morte de Jesus: “a minha hora ainda não chegou”, no calvário cumpre-se o que fora anunciado: “sabendo Jesus que chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai” (13,1). E, desta forma, pode afirmar: “Tudo está consumado” (19,30).
“Caná”, mais do que uma referência topográfica, significativo é o valor simbólico evocado pela raiz semântica do termo, pois aponta para o aspecto salvífico da morte de Cristo. Caná vem do verbo hebraico qanah que significar “adquirir”. Este verbo é utilizado muitas vezes na Sagrada Escritura para indicar a intervenção de Deus para libertar, salvar, reconquistar, resgatar o seu povo (Dt 32,6; Sl 78,54). Por isso, quando as autoridades judaicas estão tramando a morte de Jesus, o Sumo Sacerdote profetiza que Ele “morreria pela nação…mas também para congregar na unidade todos os filhos de Deus dispersos” (11,51-52). A morte de Jesus é vista como o alto preço pago para nos adquirir: “Alguém pagou alto preço pelo vosso resgate” (1Cor 6,20).
“Houve Bodas”: sem dúvida, a alegoria do matrimônio, já bem conhecida sobretudo pelos profetas do Antigo Testamento, contextualiza de forma clara o significado da missão de Jesus. Ele é o noivo da nova e eterna aliança desejada por Deus desde sempre. João Batista, mais adiante, confirmará: “Quem tem a esposa é o esposo… Que ele cresça e eu diminua” (3,29-30), eis a razão para a plena alegria do precursor. Contudo, o anúncio deste matrimônio é marcado por uma tensão. A presença de Jesus naquela festa denuncia que a antiga aliança faliu, prova disso é a falta de vinho, símbolo da alegria (cf. Sl 104,15). O jugo escravizador das instituições, a impotência do rigorismo legal e a superficialidade das práticas religiosas (purificação dos judeus) tornaram a aliança do Antigo Testamento um peso insuportável (talhas de pedra), relacionamento desprovido de sentido de vida (vazias), e incapaz de salvar (6: número imperfeito).

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O primeiro passo para a transformação dessa relação estéril entre o Povo e Deus, a fim de que a sua nova e definitiva aliança se estabeleça, é a obediência à sua Palavra: “Fazei tudo o que ele vos disser”. Consequentemente, a alegria será abundante e permanente: “Se permanecerdes em mim, e minhas palavras em vós… Eu vos digo isso para que a minha alegria esteja em vós e vossa alegria seja plena” (15,7.11). Porém, esta verdadeira alegria será oferecida apenas na cruz, com a morte do noivo, prova suprema do seu amor misericordioso, que apesar de receber e beber o vinho podre (“Fixando uma esponja embebida de vinagre, levaram-na à sua boca” 19,29), não desiste de oferecer sempre o vinho superior (“transpassando-lhe o lado com a lança, imediatamente saiu sangue e água” 19,34) à sua esposa, a mulher do cordeiro (Ap 21,9). A celebração da eucaristia evoca o anúncio das Bodas de Caná e atualiza o Matrimônio do Calvário, renovando o constante convite: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9).

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peandrePe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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