03
FEV
2016

5º Domingo do Tempo Comum

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5º Domingo do Tempo Comum (Lc 5,1-11)
Vencendo a superficialidade estéril

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Ao concluir a celebração do Jubileu do ano 2000, São João Paulo II dirigiu à Igreja e, naturalmente, a toda a humanidade, um urgente e determinante apelo: “No início do novo milênio… um novo percurso de estrada se abre para a Igreja, e ressoam no nosso coração as palavras com que um dia Jesus, depois de ter falado às multidões a partir da barca de Simão, convidou o Apóstolo a «fazer-se ao largo» para a pesca: «Duc in altum»” (Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, n. 1).
Sem sombra de dúvida, este apelo continua ainda muito atual, sobretudo para uma sociedade marcada pela superficialidade nas palavras e ações e pela irreparável perda de valores. Diante dos graves perigos da ditadura do relativismo e da leviandade de uma sociedade líquida, a Palavra do Mestre: “Avancem para as águas mais profundas” continua apontando o fundamental e indispensável caminho que a humanidade deve percorrer para garantir a consistente felicidade, a real liberdade e a verdadeira vida.
Assim como naquele tempo as multidões acorriam a Jesus para encontrar Nele uma orientação para as suas vidas, hoje também são inúmeras as multidões que se encontram perdidas e manipuladas por tantas ideologias e, portanto, necessitadas de uma orientação que possa indicar caminhos construtores de verdadeira justiça e paz.

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O evangelho como anúncio da pessoa de Jesus é uma proposta muito concreta para empreender tal caminho. Por outro lado, urge assumir maneiras mais eficazes de fazer este anúncio. Não basta apenas espalhar ideias sobre Jesus ou mesmo multiplicar pregações teóricas sobre os valores fundamentais da vida humana. É necessário construir uma sociedade que não tenha medo da verdade, ainda que esta tenha um alto preço a ser pago, mas valerá a pena.
Jesus ao subir na barca e afastando-se um pouco da margem, usou um meio simples mas muito eficaz para se fazer ouvir. Mantendo-se a uma distância necessária e estratégica, podia ser visto e ouvido pela multidão. Caso contrário, permanecendo indistintamente no meio da multidão, seria comprimido por ela e impedido de dirigir-lhe a Palavra tão desejada. A Igreja para levar o evangelho às multidões de hoje precisa aprender a usar meios mais eficazes, contudo não pode trair a sua missão, deve manter-se fiel à sua identidade. Será sempre uma barca no mar muitas vezes revolto e tempestuoso. Contudo, deixando-se guiar pelo seu Timoneiro, não naufragará.
Assim como os pescadores se encontraram desencorajados diante do insucesso do árduo trabalho, apesar de terem usado as melhores técnicas do tempo (pesca noturna), em muitos setores da Igreja hoje há muito desânimo, descontentamento e frustração. Pescadores exaustos por excesso de ativismo pastoral, com suas redes esvaziadas pois esgotaram-se as suas criatividades. Por outro lado, constata-se a tentação de atrair muitos peixes a todo custo, capturando-os com as redes do sentimentalismo religioso ou mesmo na armadilha da fé infantilizada pela compulsiva e ilusória busca da prosperidade. Tal pescaria, fácil de realizar nas margens do mar, não serve para o Reino, pois não é fruto da obediência ao Mestre: “Porque disseste, lançarei as redes”, mas se enraíza na autorreferencialidade e orgulho de quem se pensa dono da barca.
Significativa é a reação de Pedro diante da surpreendente pesca, fruto não tanto das suas técnicas de pescador, mas consequência da sua atitude humilde e obediente, deixando-se orientar pela palavra do Mestre. Depois de ter avançado para as águas mais profundas, Pedro mergulha numa outra profundeza, a da sua realidade de homem: “Afasta-te de mim porque sou um homem pecador”. Sem dúvida, este foi o mergulho mais importante que Simão Pedro realizou, consequentemente a pesca que teve maior resultado em toda a sua existência. Um pouco antes quando obedeceu ao mandato do Mestre, e avançou para as águas mais profundas, encheu suas redes abundantemente. Isto foi apenas um ensaio daquilo que seria a experiência decisiva para conhecer quem era aquele homem Jesus de Nazaré e, também, o momento de Pedro reconhecer-se quem era: um pecador.

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Se o reconhecimento de que não haviam apanhado nada foi o passo decisivo para reverter a situação de frustração e insucesso em abundância e fartura, agora o reconhecimento de que nada mais é do que um pecador foi decisivo para dar o importante passo para a grande mudança, a conversão: de pescador de peixes para pescador de homens. Se até então Pedro e os seus companheiros pescavam para a morte (retirando os peixes da água conduziam à morte), agora são chamados pelo Mestre para que continuem a pescar, mas para a vida.
Se para a primeira pesca tiveram que deixar tudo aquilo que representava a sua experiência de pescadores para obedecer à Palavra, isto é, voltar para o mar depois de uma tentativa frustrante, e assim realizar o inesperado, apanhando uma “multidão de peixes grandes”, agora, tendo aprendido a lição na prática da fé, deixam tudo e seguem a Jesus para singrar os mares da humanidade, com o grande e permanente apelo: vencer a superficialidade estéril, e na profundidade da existência, encontrar a vida, e a vida em plenitude.

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peandrescjdehoPe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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