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FEV
2016

Tentação: tentativa de destruição

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I Domingo da Quaresma (Lc 4,1-13)
Tentação: tentativa de destruição

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

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Como todos os anos, no primeiro domingo da Quaresma faz-se a proclamação do evangelho das tentações de Jesus. Se não estivermos atentos, podemos cair na tentação de nem mais prestar atenção a esta dramática página do evangelho que nos relata uma das mais cruéis lutas do Filho de Deus, feito um de nós, contra o projeto diabólico de destruir a obra do seu Pai. O que não se deu apenas num momento pontual de sua existência terrena, mas uma luta constante durante toda a sua peregrinação neste mundo.
A enfadonha e tão manjada interpretação das tentações como vitória sobre o ter, o prazer e o poder parece não mais atrair atenção de nossas assembleias litúrgicas e, ao mesmo tempo, não ajuda a penetrar na dimensão mais profunda da Palavra de Deus que faz uma tremenda denúncia do projeto do tentador como projeto de destruição do plano original de Deus no tempo de Jesus, mas também ao longo da história, e sobretudo no nosso tempo hoje. As modalidades são diferentes, mas a finalidade é sempre a mesma: separar para destruir (diabo: grego diabolos: aquele que divide).
No final da narração Lucas afirma: “E tendo concluído toda sorte de tentação, o diabo afastou-se dele até o tempo oportuno” (grego: kairós). Portanto, as tentações não cessaram. Apesar de terem sido vencidas pelo Filho de Deus, elas retornam constantemente, até que toda a história alcance a sua finalidade. Vencer as tentações para nós é a nossa colaboração efetiva na luta contra o projeto destruidor da criação, da humanidade. Sabemos, pela fé e pela esperança, que o projeto diabólico já foi derrotado, mas o tempo presente (kairós) é o momento de discernir de que lado nós estamos.

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Com as tentações (desvios) propostas pelo diabo, não temos apenas ocasiões para cometer um pecado pessoal, mas elas representam perigosamente uma estratégia para destruir aquilo que é o projeto de Deus.
A primeira armadilha do diabo é relacionar a verdade com a mentira. Fazendo quase uma depender da outra: “Se és filho de Deus” consequentemente “faça o que te digo”. A primeira investida do tentador é confundir Jesus. Portanto, o projeto diabólico dos nossos dias se expressa nas mais diversas ideologias que tentam convencer as pessoas de que a verdade e a mentira dependem do subjetivismo de cada um. Portanto, não existe verdade ou no máximo esta depende de opiniões.
Feita a confusão, parte-se para a tentativa de destruição da obra do Pai. De forma muito sutil, o diabo coloca-se diante de Jesus como alguém que pretende ajudá-lo a solucionar suas dificuldades. E inescrupulosamente propõe ao Filho de Deus mudar a natureza das coisas por Ele criadas: “Diz a esta pedra: torna-te pão”. Na primeira criação, pedra não figura como alimento para os homens. Portanto, mudar a finalidade da natureza é o primeiro passo para destruí-la e separá-la do seu Criador, fazendo da necessidade do homem o critério do seu agir e a justificativa para mudar a finalidade dos seres criados. É a grande confusão que se vive hoje quando a cultura subjuga a natureza. A realidade perde o que tem de objetividade e quem dita as normas são as ideologias dominantes.

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A segunda investida do tentador é muito ousada, pois propõe a Jesus uma outra mudança: renunciar a sua filiação divina para reconhecê-lo como o seu deus: “Tudo te darei se te prostrares diante de mim em adoração”. Depois de ter tentado acabar com a criação do Pai, tendo como seu comparsa o próprio Filho de Deus, o diabo agora procura destruir a comunhão de Jesus com o Pai. Assim, seria mais fácil de dominá-lo e torná-lo um forte aliado na expansão do seu projeto de destruição.
Por fim, mais uma atrevida proposta: destruir a Palavra de Deus, pervertendo o seu significado e instrumentalizando-a em benefício próprio. Citando as Escrituras, o diabo pretende convencer Jesus de que obedecer a sua ordem: “Atira-te daqui abaixo” é garantia para obrigar a Deus atendê-lo: “Está escrito: Deus ordenará aos seus anjos a teu respeito, que te guardem com cuidado…”. Portanto, o fundamentalismo religioso é uma estratégia diabólica. Sem dúvida, o fundamentalismo é a outa face do ateísmo prático, e está muito presente nos nossos dias promovendo terríveis destruições.
Diante dessas três ousadas tentativas do diabo de querer fazer de Jesus um aliado seu para destruir a criação, a filiação divina e a Palavra de Deus, Jesus enfrenta-o com três atitudes coerentes com a sua condição de Filho de Deus. Primeiro, diz não à tentativa de negação da sua encarnação, portanto, não agirá de forma mágica transformando pedra em pão. Mas reconhece que a sua primordial fome, mesmo sendo homem, não justifica apropriar-se arbitrariamente da criação opondo-se à ação do Pai.
Em seguida, diz um não à tentativa de negação do seu caminho de sofrimento e cruz. A sua autoridade e poder não vêm das manobras de uma política corrupta que garante acesso fácil ao poder, mas da sua coerência com o projeto do Pai, ainda que seja necessário passar pelo sofrimento, pela cruz e pela morte.
Por fim, sendo a Palavra encarnada, não poderia contradizer a Palavra da Escritura que exige obediência ao seu “autor” e não se deixa manipular por qualquer leitura ou interpretação fundamentalista. Pois não é a Palavra que deve obedecer às nossas ordens interesseiras e oportunistas, mas nós que devemos perscrutar as Escrituras para conhecer a vontade de Deus e ser-lhe obedientes.
Iniciamos, assim, o nosso percurso quaresmal renovando a consciência de que como filhos de Deus não podemos destruir o seu projeto, que se manifesta na sua obra criadora, no seu amor que nos adota como filhos, e na fidelidade à sua Palavra que nos garante vida em plenitude. Para vencer as tentações é preciso seguir Aquele que já as venceu.

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peandrescjdehoPe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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