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FEV
2016

Cuidar da casa comum

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Dom Murilo Sebastião Ramos Krieger
Arcebispo de Salvador

“Se cada um varrer a frente da sua casa, toda a rua ficará limpa”, lembra um provérbio popular. Por trás dessa afirmação há uma convicção: um projeto em benefício de uma comunidade só dará certo se cada pessoa fizer a sua parte. Não é mais possível mantermos uma mentalidade que tem as suas raízes nas capitanias hereditárias. Para quem não se recorda, relembro que elas foram instituídas no Brasil em 1534, com a finalidade de habitar e desenvolver as diversas regiões do país, pouco habitadas e sob constantes ameaças de invasões estrangeiras. Segundo o projeto do Governo português, cabia ao donatário a responsabilidade total pela região que lhe fosse confiada. As pessoas que aceitassem o convite do donatário para trabalhar em sua Capitania deveriam receber dele toda a ajuda necessária. Como era de se esperar, esse projeto fracassou.

Passaram-se os séculos, mas ficou um substrato das Capitanias: muitos brasileiros estão convictos de que quem deve resolver todos os seus problemas é o Governo. A partir dessa convicção, acreditam que fazem a sua parte quando reclamam das autoridades, quando cobram delas uma resposta aos desafios que enfrentam ou quando promovem manifestações de protesto. Que a sociedade precisa se mobilizar na defesa de seus direitos, não há dúvida. Mas vale recordar aqui a observação de John Kennedy, quando assumiu a Presidência dos Estados Unidos: “Não pergunte a seu país o que ele pode fazer por você, mas pergunte o que você pode fazer por seu país”.

A Campanha da Fraternidade (CF) de 2016 vai nessa linha. É preciso ressaltar desde logo uma característica especial da Campanha deste ano: ela será ecumênica. Isso significa que, desta vez, não será somente a Igreja Católica que estará à sua frente, mas também as Igrejas que fazem parte do Conselho Nacional de Igrejas Cristãs – CONIC. Constituído em 1982, tal Conselho procura promover uma aproximação entre as igrejas que o integram, para que, juntas, se posicionem diante de desafios sociais e se unam em ações pastorais.

Ao preparar a CF 2016, o CONIC constatou que “o atual modelo de desenvolvimento está ameaçando a vida e o sustento de muitas pessoas, em especial as mais pobres. É um modelo que destrói a biodiversidade. (…) Nossa Casa Comum está sendo ameaçada. Não podemos, portanto, ficar calados. Deus nos convoca para cuidar de sua criação”.

Dado o amplo leque de ameaças ambientais, ficou decidido que se devem concentrar esforços na defesa do direito que todos têm ao saneamento básico – isto é, direito à água potável, ao esgoto sanitário, à limpeza urbana, ao manejo de resíduos sólidos, ao controle de meios transmissores de doenças e à drenagem de águas pluviais. A quem parecer curioso que um grupo de igrejas se una em torno dessa preocupação, é bom lembrar que tudo o que diz respeito ao ser humano e à sua Casa comum – a Terra -, é importante para o discípulo de Jesus Cristo.

Para orientar as reflexões e atividades em torno da CF 2016, foi escolhido o tema: “Casa comum, nossa responsabilidade”. Como lema, tomou-se um desejo do Senhor, transmitido pelo profeta Amós: “Quero ver o direito brotar como fonte e correr a justiça qual riacho que não seca” (Am 5,24).

O Governo e a sociedade organizada são chamados a unir as suas forças para que o saneamento básico seja assegurado a todas as pessoas. As Igrejas cristãs, que fazem parte dessa sociedade, se comprometem a empenharem-se, à luz da fé, pela escolha de políticas públicas e de atitudes, praticadas pelo governo e por particulares, que sejam responsáveis e que garantam a integridade e o futuro de nossa Casa comum.

Una-se a essa proposta!

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