01
MAR
2016

IV Domingo da Quaresma

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IV Domingo da Quaresma (Lc 15,1-3.11-32)
Filhos idênticos no pecado, Pai diferente na misericórdia.

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Certamente estamos diante de uma das páginas mais conhecidas do evangelho de Lucas, mas ao mesmo tempo de uma riqueza inesgotável. Ainda que a liturgia deste IV Domingo da Quaresma faça apenas a proclamação da terceira parte do capítulo 15, é imprescindível, para não perdemos o seu significado essencial, que o tenhamos presente em toda a sua inteireza, pois nele encontramos uma única parábola, ricamente plasmada em três tempos. É prova da intrínseca e necessária relação entre esses três tempos, o fato de Jesus dirigir o seu ensinamento ao mesmo grupo de ouvintes: “Publicanos e pecadores… Fariseus e os Mestres da Lei… Então, contou-lhes esta parábola”. A separação formal entre os que eram reconhecidos pecadores e aqueles que se pensavam santos e irrepreensíveis é desfeita por esta única parábola. O Mestre derruba este muro de separação hipócrita e conduz os seus ouvintes a um caminho de reconhecimento da sua condição atual, isto é, todos são necessitados de “reconciliar-se com Deus” (2Cor 5,20), pois todos estão perdidos.

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Há, porém, modos diferentes de perder-se: a ovelha perde-se no deserto, enquanto que a dracma, dentro de casa. Assim, os publicanos e pecadores eram considerados perdidos porque viviam longe da instituição religiosa, não frequentavam o templo e não praticavam a Lei, assemelham-se, portanto, à ovelha desgarrada no deserto. Porém, Jesus completa o quadro dos perdidos, quando indica que há perdidos também dentro de casa: os fariseus e escribas, homens da religião, de dentro da casa de Deus (templo, sinagoga). Portanto, esses dois primeiros momentos indicam a condição idêntica de todas as pessoas: são pecadoras e necessitadas de conversão, de reencontro, de retorno, de vida plena cuja expressão máxima é uma alegria que se compartilha: “Chama os vizinhos e amigos, convoca amigas e vizinhas, dizendo-lhes: Alegrai-vos comigo…”, e alcança os céus: “Há mais alegria diante dos anjos de Deus por um só pecador que se converte…”
O terceiro momento, o relato do pai e seus dois filhos, retoma a condição atual da humanidade pecadora (perdida), sublinhando agora a causa dessa perda, isto é, o seu pecado fundamental. O filho mais novo, representando os pecadores (oficiais) e os publicanos, afastados de casa, assim como a ovelha tresmalhada, vai para longe e se perde no deserto. O filho mais velho, representa os observantes da Lei e, portanto, exemplar e irrepreensível, e é identificado com a dracma que, mesmo estando dentro de casa, não vivia na comunhão nem com o seu pai, a quem reconhece apenas como um senhor despótico: “Tantos anos que te sirvo, nunca desobedeci a qualquer ordem tua. E tu nunca me deste um cabrito para eu festejar com meus amigos”; nem com o seu irmão, a quem não reconhece mais como tal, pois refere-se a ele apenas como: “Este teu filho”; não o chama em nenhum momento de irmão, rejeitando assim absolutamente a fraternidade.

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A reconciliação entre os dois filhos perdidos e, portanto, idênticos no seu pecado, é iniciativa do pai, assim como foi a procura árdua do pastor e a diligente busca da mulher. Jesus, ao acolher os pecadores e sentar-se à mesa com eles, abre espaço de reconciliação para todos, inclusive para aqueles que não se reconhecem pecadores, mas necessitam de salvação. “E Deus realiza essa reconciliação em Cristo, não imputando aos homens as suas faltas…” (2ª leitura). O pecado da humanidade, indicado na parábola como uma perda, é, antes de tudo, perda da relação com Deus e com os demais. A ovelha não se perdeu apenas do seu pastor, mas das demais (99). Uma dracma perdida não era apenas prejuízo individual para a sua dona, mas a sua falta quebrava a harmonia entre todas as outras, pois certamente seria sentida no seu conjunto, sobretudo se fosse uma peça de um colar. Portanto, não estamos diante de perdas simplesmente materiais, mas de perdas que ferem a totalidade da relação. Por isso, a grande denúncia de Jesus é o pecado que provoca a perda da comunhão com Deus (filiação) e com os irmãos (fraternidade). Ambos os filhos estão perdidos, independente de onde e de como se perderam. Ao sair de casa e exigir a sua parte na herança, o filho mais novo renuncia a filiação, pois declara morto o seu pai, quebrando todos os vínculos afetivos com ele e com a família. Não sendo mais filho, torna-se um escravo cuja sobrevivência dependerá de um patrão: “Foi empregar-se com um homem que o mandou cuidar dos porcos”. A humanidade quando rejeita a sua filiação, escraviza-se nas mãos dos senhores do mundo, que permitem-lhe sobreviver apenas a duras penas, negando-lhe dignidade e respeito.
O filho mais velho rejeita a filiação, apesar de não sair de casa, quando reconhece que na casa do seu pai é apenas um escravo, cumpridor de todas as normas, mas não tem motivos para alegrar-se no seio familiar, por isso precisava de um cabrito para festejar fora (“com meus amigos”). Rejeitando a filiação, consequentemente assumem-se posturas que ferem a fraternidade. O filho mais novo afastando-se de casa não terá mais um irmão com o qual dividir os direitos, mas também deveres; não reconhece que apoderar-se da herança antes do tempo e partir para longe era impedir que o seu irmão pudesse usufruir também do que lhe pertencia, não reconheceu que o critério do seu pai era outro: “O que é meu é teu”. Preferiu gastar tudo sozinho, de forma egoísta, sem nenhuma possibilidade de partilha com os que lhe eram mais próximos, e, por isso, perdeu tudo.
A misericórdia do pai, ponto alto da parábola, anuncia a grande diferença do agir de Deus, que está sempre disposto a nos readotar como filhos, para que nos reconheçamos mais uma vez irmãos. Ele está disposto a fazer como o pastor ou a mulher, que empreendem a sua busca com a certeza de que irão encontrar: “Procura até encontrar”. Assim faz Deus, nem abandona os de casa nem condena os de fora. Contudo, não lhes impõe nada, apenas busca, vai ao encontro com o seu amor que ultrapassa todas as barreiras de tempo e distância. É significativo que filho, mesmo distante, toma a decisão de voltar para casa porque descobre a proximidade do seu pai, que é bom para com todos: “Na casa do meu pai até os empregados têm pão com fartura”. O filho mais velho, condenando o irmão que saíra de casa, condena-se a si mesmo quando rejeita a fraternidade e se exclui da família: “ficou com raiva e não queria entrar”. Filhos idênticos no pecado, mas com a possiblidade de fazerem uma experiência diferente graças a um pai diferente cuja misericórdia é a mais forte expressão do seu poder. A única condição exigida é não negar que são pecadores, para serem perdoados, acolhidos e recuperarem a verdadeira alegria de serem irmãos, porque de Deus são filhos.

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peandrescjdehoPe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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