23
MAR
2016

Quinta-feira Santa

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Quinta-feira Santa (Jo 13,1-15)
O amor antes de ser traído, entrega-se

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

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O IV Evangelho, diferentemente dos sinóticos, não narra explicitamente a instituição da Eucaristia na última ceia. Porém, isto não significa que o evangelista tenha minimizado a sua importância; pelo contrário, ele já havia se antecipado no capítulo 6, com uma profundíssima reflexão sobre o tema: o Discurso do Pão da Vida, após a multiplicação dos pães. A Eucaristia, porém, como memorial da Páscoa de Jesus, é apresentada por João, nos seus elementos fundamentais, no gesto do lava-pés. Tal gesto, por causa do seu caráter simbólico, característica fundamental do IV Evangelho, é muito eloquente para falar do memorial da paixão, morte e ressurreição do Senhor, pois anuncia que “chegara a sua hora de passar deste mundo para o Pai”. Portanto, cada ação de Jesus no lava-pés evoca gestos eucarísticos (tomar, agradecer, partir e dar), pois é, evidentemente, uma referência à sua vida, morte e ressurreição. Lavando os pés dos seus discípulos, o Mestre não está apenas dando um exemplo isolado de humildade, mas está sintetizando toda a sua passagem por este mundo. Assim sendo, a Páscoa de Jesus se realiza durante toda a sua vida: “pois viera de Deus e a Deus voltava”, e a sua passagem por este mundo é marcada por um amor constante: “amando até o fim” (grego eis telos: até os extremos, definitivamente). Amor que alcançou a sua expressão mais plena na entrega de sua vida morrendo na cruz: “Não há maior amor do que aquele que dá a vida” (Jo 15,13).
João com a expressão: “Antes da festa da Páscoa”, não pretende apenas indicar uma anterioridade temporal, mas sublinha que a entrega de Jesus é o fundamento de toda a história da Salvação, isto é, a sua oferta está antes e na base de tudo. Por conseguinte, a Páscoa dos Judeus, a libertação do Egito, cuja celebração era iminente, só aconteceu porque antes dela, Javé havia passado (Ex 12,12). Sem esta Páscoa de Javé, não haveria nenhuma outra passagem. Por isso, a encarnação do Verbo é o início de sua páscoa e o fundamento da criação. Toda a criação perderia a sua razão de ser se por ela, o seu Criador não tivesse passado e não se fizesse presente: “Pois tudo foi feito por ele e sem ele nada foi feito de tudo o que existe” (Jo 1,3).

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Aspectos fundamentais do Lava-pés referentes à Eucaristia:

1. “Sabendo que o Pai tudo colocara em suas mãos”: esta afirmação contrapõe-se ao plano do príncipe das trevas que, por sua vez, “tinha colocado no coração de Judas o projeto de entregá-lo (grego ballo: jogar, na forma do perfeito indica uma ação no passado, mas com consequências no presente, isto é, a traição de Judas não foi uma ação pontual, isolada, mas ápice de um processo). A consequência histórica desse confronto entre o projeto de Deus e o projeto do diabo torna-se evidente na cruz. A Eucaristia faz memória deste conflito, pois atualiza o sacrifício da cruz, ao mesmo tempo que anuncia a vitória do Cordeiro imolado, que derrota as forças do mal e da morte com a sua ressurreição. Segundo a sua tradição mais antiga (1Cor 11,23-26), a Eucaristia é o anúncio da morte do Senhor recordando o que Ele fez na última ceia, e o primeiro gesto de Jesus é tomar o pão e o cálice (nas mãos) para proferir a bênção. Portanto, a Eucaristia faz memória de todo o agir de Jesus, daquilo que o Pai colocara em suas mãos: a missão de salvar. E são essas mesmas mãos que tomaram o pão e o vinho para transformá-los em seu corpo e sangue (“eucaristizando-os”), que acolheram as crianças, proclamando-as modelo para o discipulado (Mc 10,13-16), que ergueram os doentes para se colocarem a serviço (Mc 1,29-31), que sustentaram Pedro que vacilava na fé (Mt 14,31), que manifestaram a sua misericórdia tocando nos leprosos a fim de purificá-los (Mc 1,41), que restituíram a vida aos mortos (Mc 5,41; Lc 7,11-17), que abriram os ouvidos dos surdos para acolherem a Palavra de Salvação (Mc 7,32), que expulsaram os demônios libertando o ser humano do domínio do mal (Mc 9,27) e que, perfuradas, serviram de discernimento para ser reconhecido como o verdadeiro Senhor, que morreu e ressuscitou (Jo 20,20). Por fim, foram essas mesmas mãos que abençoaram os discípulos, enviando-os em missão para serem suas testemunhas fazendo memória do que Ele fez (Lc 24,50).

2. “Levanta-se da mesa, depõe o manto”: neste gesto, Jesus não abdica do seu poder (simbolismo do manto), mas o coloca à disposição (grego tithemi: depor, colocar à disposição). Este verbo é utilizado por João quando Jesus fala da entrega de sua vida: “Ninguém tira a minha vida, mas eu a dou (coloco à disposição) livremente” (10,18). E mais explicitamente quando indica a vida dada pelas ovelhas como cumprimento da vontade do Pai (Jo 10,11.17.18). Portanto, o segundo gesto eucarístico (dar graças) se anuncia nesta atitude de Jesus de entrega de sua vida como o perfeito sacrifício, a verdadeira ação de graças: “Não quiseste sacrifico e oferenda… Eis que eu vim para fazer a tua vontade” (Hb 10,5.9).
3. “Se eu não te lavar não terás parte comigo”: no gesto do lava-pés, Jesus anuncia que pretende repartir a sua vida (missão) com os discípulos, como fez ao partir o pão. Deixar-se lavar (caráter batismal) por Jesus é aceitar mergulhar no mistério da sua morte, a fim de poder ressuscitar com Ele: “Mais tarde compreenderás”. Pedro resiste pois não quer aceitar que ser discípulo do Mestre-servo, exige compartilhar com ele o seu modo de agir: serviço; e o seu destino: a morte de cruz. A Eucaristia, sendo pão partido, é anúncio de missão compartilhada até as últimas consequências.
4. “Dei-vos o exemplo para que, como eu vos fiz, também o façais”: nestas palavras finais de Jesus, encontramos uma referência clara ao último gesto eucarístico: dar, entregar (grego: didomi); e, portanto, um paralelo evidente com a expressão conclusiva da narração da instituição: “Fazei isto em memória de mim”. Este mandamento de Jesus não pode ser compreendido apenas como uma ordem de realizar um rito, mas exige um compromisso de atualização de tudo o que Jesus fez, pois a Eucaristia é memorial de toda a sua vida e não apenas de um gesto isolado. Ao afirmar ter dado o exemplo (grego hypodeigma: mostrado por baixo), o Mestre não está ensinando o que os outros devem fazer, mas relembrando o que ele fez durante toda a vida. Não é demonstração artificial, mas revelação do que está por baixo, no fundamento.
O lava-pés como anúncio simbólico da páscoa de Jesus, e a Eucaristia como atualização da morte e ressurreição do Senhor, testemunham que o amor, apesar de traído, nunca desiste de entregar-se.

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peandrescjdeho2Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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