05
ABR
2016

III Domingo da Páscoa

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III Domingo da Páscoa (Jo 21,1-19)
O amor que transforma pescador em pastor

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

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Nesses três primeiros domingos da Páscoa temos lido os relatos das aparições de Jesus Ressuscitado aos discípulos. Porém, mais do que se fazer ver, Jesus está preparando e conduzindo os seus discípulos para a missão. Pois esta será o sinal mais convincente de que Aquele que morreu e foi sepultado, está vivo e vai à frente dos seus.
O capítulo 21 de João, considerado um acréscimo ao evangelho original, é uma belíssima e profunda reflexão do que significa o encontro da comunidade com o Ressuscitado, que nunca desiste de renovar-lhe a missão a fim de que ela seja verdadeiramente a sua comunidade, as testemunhas da sua ressurreição.
Podemos identificar dois momentos nesse relato: a pesca dos sete discípulos e o diálogo entre Jesus e Simão Pedro. Pedro e os seis outros discípulos, símbolo da totalidade da Igreja, para cumprir plenamente a sua missão, precisam se converter de pescador em pastor. Pois o seu Mestre, um dia como pescador, os puxou para o seguimento, mas dando a vida por eles, revelou-se o verdadeiro pastor. Portanto, não basta apenas ser pescador, atrair, puxar, mas é preciso ser pastor, isto é, dar a vida. Não podemos reduzir a missão do Ressuscitado a um proselitismo de redes cheias, mas a missão se realiza quando há vida e vida em plenitude, pois este é o compromisso do pastor: “O Bom Pastor dá a vida pelas suas ovelhas” (IV Domingo).

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A primeira cena (a pesca) prepara a conversão de Pedro. Ele tomando a iniciativa e comandando a pesca, faz a experiência da humilhação: “Naquela noite não apanharam nada”. Técnica (de noite) e recursos (barca, redes) não foram suficientes para o sucesso. Além do mais, precisam reconhecer publicamente este fracasso: “Filhos, não tendes nenhum peixe? Responderam: NÃO” Assim é a missão que se apoia em si mesmo, fechando-se na sua autorreferencialidade. Sem o reconhecimento da presença do Ressuscitado, a pesca continuará sem frutos. Uma vez reconhecida esta presença, não é mais o pescador que dá as ordens, mas agora é o Pastor-cordeiro, morto e ressuscitado (“Já tinha amanhecido e Jesus estava de pé na margem”) que indica a direção da missão: “Lançai a rede à direita da barca e achareis”. Na obediência (escuta atenta) à palavra de Jesus, não apenas conseguiram apanhar peixes, mas fizeram a descoberta da sua presença: “Então o discípulo a quem Jesus amava disse a Pedro: ‘É o Senhor!’” O discípulo amado, mais uma vez, precede a Pedro (20,4), porém o ajuda a chegar onde ele chega primeiro. Simão Pedro dá mais um passo na sua conversão: “Pedro ouvindo que era o Senhor, vestiu a roupa, pois estava nu e lançou-se a si mesmo no mar”. Três atitudes fundamentais no processo de conversão de Pedro: ouvir, vestir-se e lançar-se. Pedro ouviu a Boa Notícia: “É o Senhor!”, vestiu-se (reconhecendo que estava nu como Adão depois do pecado) e atirou-se ao mar: retornou para o Mestre. Tanto o verbo “lançar as redes” como o “atirar-se de Pedro” são o mesmo (grego: balo). Lançando-se ao mar, prepara-se para a sua fundamental mudança de pescador, que lança redes, para pastor que se entrega a si mesmo (lançou-se a si mesmo) pelas ovelhas.
Assim como o discípulo amado, ao chegar primeiro ao sepulcro, permite que Simão Pedro entre antes dele, agora anunciando que era o Senhor, impulsiona Pedro a chegar primeiro lá onde Jesus estava. Abandonando a barca, vai até Jesus nadando. De pescador, torna-se peixe, assim como para aprender a ser pastor, deve reconhecer-se também ovelha entre as ovelhas do redil do Mestre, para aprender a amá-las verdadeiramente.

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A segunda cena (ceia e diálogo) confirma a conversão do pescador Simão Pedro, agora tratado como ovelha para aprender a ser pastor. O convite para a refeição: “Vinde comer!” é sinal de que o anfitrião é verdadeiramente Pastor, aquele que “conduz as ovelhas para os prados verdejantes, restaura as forças e prepara uma mesa à frente dos inimigos” (Sl 22). É justamente nessa refeição que Jesus não apenas refaz as forças dos fatigados pescadores, mas restaura-lhes a vocação e a missão de pastor: “Apascenta as minhas ovelhas”. Contudo, a conversão é um processo continuo; as três perguntas feitas a Pedro indicam um longo caminho a seguir. Nas duas primeiras, Jesus pergunta se Pedro o ama e a prova maior desse amor é dar a vida (grego: “agapas me?”). Pedro de forma muito honesta, apesar de humilhante, pois não tendo ainda dado a vida por Jesus, poderia responder apenas: “Eu te quero bem” (grego: “filo se”). Considera-se amigo de Jesus, está a caminho de morrer por Ele, mas ainda não o fizera.
Na terceira vez, Jesus acolhe a resposta honesta de Pedro, e transforma-a em pergunta: “Tu me queres bem?”. Sentindo a dor de um amor não pleno (filia: amizade), Pedro não pode negar e, mesmo aflito (grego: lupeo), assume absolutamente a sua verdade: “Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te quero bem”. Mesmo havendo dito: “Darei a minha vida por ti” (Jo 13,37), por três vezes, naquela mesma noite, declarou não ser discípulo dele rejeitando a possibilidade de dar a vida pelo Mestre, de provar que o amava plenamente (Jo 18,17.25.27). Porém, no encontro com o Ressuscitado, apesar da sua dor profunda diante da consciência de não ter ainda amado o Mestre até os extremos, Simão Pedro é renovado na sua esperança de provar seu amor perfeito ao ouvir o misericordioso convite: “Segue-me”, não mais para ser pescador de homens, mas para dar a vida como fez o seu Bom Pastor.

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peandrescjdeho2Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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