07
JUN
2016

XI Domingo do Tempo Comum

by :
comment : 1

XI Domingo do Tempo Comum (Lc 7,36-8,3)
O perfume do amor é mais forte do que o odor do pecado!

perfume2

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

O evangelho deste XI Domingo do Tempo Comum nos coloca diante de um grande espelho. Nessa cena é possível reconhecer muitas de nossas atitudes: desde a arrogância de pensar que somos melhores do que os outros, porque não pecamos como eles ou até mesmo porque não nos consideramos tão pecadores, e, portanto, podemos fazer as vezes de juízes impiedosos (Simão), até a identificação espontânea e honesta com a mulher pecadora, que não tem nada mais a fazer senão chorar os seus pecados e derramar lágrimas de alegria por estar aos pés Daquele que lhe anunciará a boa notícia: “Teus pecados estão perdoados… Tua fé te salvou”.
O realismo da cena do evangelho nos coloca diante de um grande desafio: expandir o odor do pecado, assumindo a postura de juízes de Deus e do mundo, ou fazer exalar o perfume do amor, sendo misericordiosos como o Pai, que não beatifica os nossos pecados, mas os perdoa. Essas duas realidades estão mescladas simbolicamente nos dois personagens que se destacam no episódio evangélico. De um lado, a mulher, conhecida na cidade, como afirma Simão: “Que tipo de mulher: é uma pecadora”; mas reconhecida pelo Senhor como “Aquela que banhou os seus pés com lágrimas e enxugou-os com os cabelos, não parou de beijá-los e ungiu-os com perfume”. Por outro, Simão, o fariseu anfitrião, que não cumpre a sua nobre missão de receber o Mestre em sua casa, deixando de lado gestos e rituais de acolhimento e cordialidade: água para lavar os pés, beijo de saudação, óleo para ungir a cabeça; ações imprescindíveis para um judeu (fariseu) que admite um hospede à sua mesa. Abandonando a sua condição de anfitrião, assume a postura de juiz, e não se contenta apenas em condenar a mulher por ser pecadora, mas também a seu próprio hóspede, que até então julgava ser um importante profeta, pois caso contrário não o teria convidado para um jantar na sua casa.
Diante das conclusões preconceituosas e injustas de Simão, isto é, de que aquela mulher invasora e oportunista não passava de uma pecadora pública, e de que o seu convidado de honra não era nada daquilo que ele esperava que fosse (um profeta), Jesus faz a solene declaração de que não apenas conhece a mulher, mas conhece muito bem quem é o próprio Simão.

perfume4

Se para Simão aquela mulher era só uma pecadora merecedora de desprezo e indiferença, para Lucas ela é modelo de discípulo, pois não se coloca à frente do Mestre, mas “atrás” dele (grego: opiso, na narração dos sinóticos o termo é utilizado para falar do seguimento: “Se alguém quiser vir atrás de mim…”, Lc 9,23); além disso, reconhece que é aos pés do Mestre que deve estar, assim como fez Maria, irmã de Marta para escutá-lo (Lc 10,39); não se contenta apenas em dar água para a ablução ritual, mas ela mesma lava os pés do Mestre (tarefa do escravo); superando a pura formalidade, assume aquilo que deve ser a missão de todo discípulo de Jesus: “Aquele que quiser ser o primeiro dentre vós, seja o servo de todos” (Mc 9,44); por fim, ungindo os pés de Jesus com o perfume, faz eco às palavras do profeta Isaías: “Como são belos sobre os montes os pés daquele que anuncia a paz, do que proclama boas notícias (evangelho) e anuncia a salvação”(Is 52,7).

perfume

É verdadeiramente uma profetisa da Nova Aliança, pois no seu gesto silencioso (profecia em ato) anuncia que aquele homem não é um simples profeta, mas o próprio Deus, pois perdoará os seus numerosos pecados. Simão, porque não se reconhece pecador, não consegue fazer a experiência do perdão, da misericórdia, que são as expressões mais concretas do amor de Deus. Não é capaz de acolher-se como pecador, a fim de ser perdoado. Portanto, não consegue acolher Aquele que lhe pode dar o perdão e, consequentemente, não é capaz de acolher e perdoar a quem necessita ser perdoado. Assim sendo, Jesus de Nazaré para Simão não passa de um impostor, um que não sabe nem aquilo que é óbvio. Porém, Jesus não o deixa na ignorância e nas suposições, mas revela-lhe que conhece muito bem a mulher, sobretudo aquilo que a distingue por excelência: a sua capacidade de amar. Mas também sabe com profundidade quem é Simão, e por isso, provoca-o a um conhecimento de si mesmo, isto é, a reconhecer a sua incapacidade de acolhimento, e a ignorância que o encarcera nos preconceitos e julgamentos injustos. A presença incômoda da mulher pecadora na casa do fariseu Simão é transformada pela palavra de Jesus em apelo de conversão.
O perfume do amor exalado nos gestos da mulher ao acolher Jesus (lavar os pés e beijá-los), confessar seu próprio pecado (derramar lágrimas), e proclamá-lo verdadeiramente Profeta, Senhor e Deus (unção com perfume), vai para além do odor do seu pecado. A Simão (e a nós?!!!) resta aprender a lição: antes de intensificar o odor do pecado, exalemos o perfume do amor: “Porque o amor cobre uma multidão de pecados” (1Pd 4,8).

perfume3

peandrescjdeho2Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

About the Author
This is author biographical info, that can be used to tell more about you, your iterests, background and experience. You can change it on Admin > Users > Your Profile > Biographical Info page."
  1. ELISALVA DE FATIMA MADRUGA DANTAS [PRLET***20102] Reply

    Prezado Pe. André,
    Além de esclarecedor como sempre, o texto é uma verdadeira ode ao amor cristão, cuja base está no acolhimento do próximo, no perdão, na humildade e ato voluntário de servir.
    Mais uma vez, muito obrigada!
    elisalva

Leave a Reply

*

captcha *