21
JUN
2016

XIII Domingo

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XIII Domingo do Tempo Comum (Lc 9,51-62)
Fogo do céu já desceu!

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

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O pedido dos discípulos Tiago e João: “Senhor, queres que ordenemos desça fogo do céu para consumi-los?” representa um impulso muito presente no coração de pessoas que diante de um mal recebido, de uma rejeição preconceituosa ou mesmo tendo sofrido uma ofensa sem sentido, acreditam que a melhor forma de fazer justiça é a vingança. Jesus não lhes permite tal atitude irascível. Se o castigo para os maus viesse dos céus, a Terra não existiria mais. Jesus propõe outro caminho para destruir o mal que não significa, em primeiro lugar, a destruição de quem o pratica. A sua morte na cruz testemunha a grande paciência de Deus, que apela para a conversão dos pecadores e não simplesmente determina a sua destruição. Quantos desejavam que Jesus, pregado na cruz, provasse que era o Filho de Deus reagindo com revanchismo a fim de mostrar o seu poder: “Salvou a outros, salve-se a si mesmo”; outros exigiam que descesse da cruz, ou que tivesse um socorro do céu. Porém, a palavra vitoriosa do Pai não foi ordenar a morte de quem matou o seu Filho, mas ressuscitá-lo, pois foi morto injustamente.
Sem dúvidas, esse é o grande mistério que envolve a fé cristã, e que muitas vezes se torna incompreensível: no lugar de vingança, perdão, pois o “castigo” não é dado por Deus, mas é uma consequência de escolhas arrogantes feitas pelo ser humano.

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O evangelho deste XIII Domingo do Tempo Comum está em estreita relação temática com o anúncio que Jesus fez de sua paixão, morte e ressurreição (XII Domingo do Tempo Comum), após a revelação de sua pessoa e missão. Lucas 9,51 apresenta o divisor de águas entre a missão de Jesus na Galileia e a sua subida para Jerusalém, onde se consumará a missão, coroada pela sua morte e ressurreição. A rejeição por parte dos samaritanos se dá porque percebem que Jesus está se dirigindo para Jerusalém. Porém, Jesus já tinha sofrido antes rejeição e ameaça de morte, na sua própria aldeia Nazaré: “Expulsaram-no para fora da cidade e o conduziram… com a intenção de precipitá-lo. Ele porém, passando pelo meio deles, prosseguia seu caminho” (Lc 4,29-30). Nem a rejeição em Nazaré nem a dos samaritanos impediram Jesus de realizar a sua missão. Por outro lado, tais circunstâncias prepararam a grande rejeição que acontecerá em Jerusalém: “Eis que estamos subindo para Jerusalém e vai se cumprir tudo o que foi escrito …” (Lc 18,31.32).
Caminhando rumo a Jerusalém, os discípulos devem aprender o caminho do Mestre. Este caminho tem características permanentemente válidas para toda pessoa que decide palmilhar a estrada de Jesus. Ainda que incompreensíveis e muitas vezes irracionais, a rejeição e a perseguição da fé cristã é uma constante ao longo da história. Contudo, a experiência de fé tem provado, a começar pelo próprio Jesus, o Mártir fiel, que a rejeição não impede nem destrói a força dos caminhantes. Porém, é preciso ter convicção disso, e tomar a resolução de dar passos firmes e corajosos como o próprio Senhor: “Ele tomou resolutamente o caminho de Jerusalém” (no grego: to prosopon estérisen: o rosto endureceu, fixou). A fé cristã é força para caminhar, mesmo entre as adversidades, e não câmera de segurança para nos advertir dos perigos nem colete à prova de bala para nos safar da morte. Quem se apoia nessas seguranças não precisa de fé, basta a sorte. Pois a sorte pode livrar do tiro, mas não da morte, enquanto que a fé garante a vida que não morre.

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Os discípulos pedem a permissão de Jesus para fazer descer fogo do céu. Talvez o fogo destruísse alguns samaritanos que rejeitaram acolher Jesus e os seus, mas não seria capaz de fazer o evangelho se alastrar alcançando corações e provocando mudança de vida (conversão). Por isso, Jesus não permite; porém, como João Batista já havia anunciado, Jesus é o Messias que “batizará com o Espírito Santo e fogo” (Lc 3,17). Mais adiante, é o próprio Jesus quem declarará: “Eu vim trazer fogo à terra, e como desejaria que já estivesse aceso!” (Lc 12,49). E aqui mais uma vez relaciona-se o fogo com o batismo, que representa a sua morte e ressurreição, e consequentemente com a descida do Espírito Santo em Pentecostes.
Três atitudes testemunham que este fogo trazido por Jesus está queimando. Antes de tudo, a adesão ao seu estilo de vida: “as raposas têm tocas, os pássaros do céu, ninhos; mas o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça”; depois, o reconhecimento da primazia do Reino de Deus, até mesmo diante dos laços mais sagrados do ser humano: “Permite-me primeiro enterrar meu pai”, “permite-me primeiro despedir-me dos que estão em minha casa”; e, por fim, a decisão de assumir o destino do Mestre, seguir olhando para frente, o que exige perseverança e fidelidade, pois “quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o Reino de Deus”. Os discípulos de ontem e de hoje são chamados para o anúncio do Reino de Deus que, por sua vez, não se faz com o fogo que destrói os pecadores, mas com o fogo do Espirito que aquece o coração, queima o pecado e produz conversão.

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peandrescjdeho2Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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