12
JUL
2016

XVI Domingo Tempo Comum

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XVI Domingo Tempo Comum (Lc 10,38-42)
A pior escolha: ficar só

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

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Ao longo do seu caminho rumo a Jerusalém (Lc 9,51s: XIII Domingo), Jesus vai passar por muitas situações: rejeição por parte dos Samaritanos, confronto com os doutores da Lei (Lc 10,25s: XV Domingo), e na perícope deste XVI Domingo faz uma parada estratégica na casa de Marta e Maria para retomar um dos principais temas do evangelho de Lucas, isto é, a visita de Deus (Lc 7,11-17: X Domingo). As duas irmãs, anfitriãs de Jesus, representam dois modos de reagir diante da visita de Deus. É inegável que ambas recebem Jesus, mas é também evidente que só uma permaneceu com Ele. Ali está a grande diferença diante da visita. Não basta apenas receber em casa, é preciso acolher no coração. Portanto, é preciso passar de anfitriã à discípula. Enquanto Marta optou por estar sozinha com os afazeres da casa, Maria escolheu a melhor parte: “ficou sentada aos pés do Senhor, escutando-lhe a palavra”. Marta estava preocupada pelo muito serviço, talvez empenhada na preparação de algo para oferecer a Jesus e aos seus discípulos; com as mãos e o coração tão ocupados, não conseguia acolher o que o Senhor tinha para lhe oferecer: sua presença e sua palavra. Marta e Maria não representam simplesmente duas pessoas (ativa e contemplativa), mas indicam as duas possibilidades de escolhas que temos nos nossos relacionamentos: receber e abandonar ou receber e permanecer.

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Há uma tendência muito forte no coração das pessoas, quando querem estabelecer relacionamentos, deixarem-se levar pela tentação de oferecer coisas, pensando ser a maneira mais segura de construir pontes e criar laços, quando na verdade o excesso de coisas materiais pode criar uma montanha de entulhos, impedindo a leveza da relação e a profundidade do encontro, pois confunde a gratuidade da presença com a compulsiva insegurança da cobrança velada dos presentes. Jesus adverte Marta diante da sua inquietação e agitação, totalmente absorvida por muitas coisas. Quando cremos que as coisas que podemos oferecer às pessoas garantirão o nosso relacionamento com elas e esquecemos de ser presença que as acolhe, mais cedo ou mais tarde nos depararemos com a chocante verdade: ficamos sozinhos. Quando consideramos mais importante o que podemos oferecer e não tanto o fazer-se oferta, restará apenas no nosso coração a angústia de ter perdido a oportunidade do encontro, e ter feito apenas o papel de um deliverer de coisas.

Quando nos excedemos nas coisas que podemos dar ao outro, projetamos nele o nosso mendigo interior, revelamos a nossa incapacidade de viver a gratuidade, transformando sutilmente os nossos relacionamentos em relação mercantil: “ofereço coisas a você, e você me paga com afetos que sedam a minha angústia de ser incapaz de estabelecer relacionamentos alimentados por presença, mas simplesmente comprados com presentes”.

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Jesus entrando na casa de Marta e Maria não pretendia encontrar uma mesa preparada a fim de matar a sua fome como também a dos seus discípulos. Mas fazendo-se hóspede, anunciou com a sua presença e palavra que Deus visita o seu povo, e é Ele mesmo quem prepara a mesa; Ele mesmo oferece o alimento mais desejado pelo coração humano, como fará com os discípulos de Emaús no final do evangelho quando de hóspede, torna-se o anfitrião partindo o pão para anunciar-lhe que não está morto, mas ressuscitado e, portanto, fazendo-se presença permanente.
Marta, preocupada e agitada para servir, é chamada a fazer a experiência do acolhimento Daquele que veio para servir, pois Ele mesmo afirma: “Eu estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27). Querer servir sem aprender de Jesus, sem antes colocar-se aos seus pés, pode levar simplesmente a uma agitação ou a um ativismo perturbador e estéril, tendo como consequência o cansaço e a solidão. Quem pretende servir o Reino, mas não cresce no discipulado, não se nutre da palavra do Mestre, não encontra tempo para permanecer aos seus pés, torna-se um trabalhador frustrado, agitado com tantos afazeres, ironicamente se afastará do Senhor e da comunidade fraterna, e só saberá expressar seu descontentamento acusando os demais de o ter deixado sozinho, quando na verdade, a escolha da solidão foi uma opção sua, pois preferiu fazer coisas, e não ser discípulo.

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peandrescjdeho2Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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