19
JUL
2016

XVII Domingo

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XVII Domingo Tempo Comum (Lc 11,1-13)
Mais do que uma oração

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

A oração ao Pai (nosso), ensinada pelo Filho aos seus discípulos, não se reduz a uma fórmula a ser pronunciada, mas é, antes de tudo, o modelo por excelência da oração cristã. Ao mesmo tempo simples e profunda, nela encontramos não apenas as palavras acertadas para dirigir a Deus, nosso Pai, mas é um verdadeiro programa de vida a fim de que nos tornemos, de fato, seus filhos e filhas. Nas cinco petições que compõem esse modo de orar (versão de Lucas), temos uma referência e inspiração concretas para o nosso modo de rezar.:“se por um lado, a sua simplicidade é confirmada pelo fato de que qualquer criança pode aprendê-la, por outro, a sua profundidade exige toda uma vida para meditar e vivenciar cada uma de suas afirmações” (São João Paulo II).

Podemos identificar duas partes nessa oração-modelo. Inicia-se com petições que se referem ao louvor de Deus e ao advento do seu Reino. Em seguida, três súplicas concernentes ao ser humano concreto, inserido num horizonte histórico marcado por um presente com suas necessidades (pão cotidiano), por um passado com suas consequências (perdão para os pecados cometidos) e por um futuro com seus desafios (não cair na tentação). Portanto, a oração do Pai (nosso) nos favorece a experiência do encontro da eternidade com o tempo, do Divino com o humano. É uma oração que, do ponto de vista pedagógico-espiritual, leva-nos ao centro da experiência litúrgica cristã, que deve ser o encontro do Eterno com o transitório. Enquanto peregrinamos rumo ao definitivo, o Eterno se faz companheiro nesse caminho para não perdemos a direção. A oração nos ajuda a recuperar a lucidez dessa verdade.

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A oração cristã não se aprende, se reza. Certamente foi assim a experiência de muitos de nós. Quando crianças, nossos pais, avós rezavam conosco, e não simplesmente nos davam fórmulas para copiar e decorar como tarefa escolar. Mesmo repetindo o que nos diziam, a disposição não era de quem estava cumprindo um dever de casa, mas nos faziam mergulhar numa experiência de abertura ao Transcendente.
O pedido do discípulo: “Senhor, ensina-nos a rezar”, surpreendentemente já é oração. E, ao mesmo tempo, fruto da oração de Jesus, pois desperta nos seus discípulos o desejo de, também eles, fazerem essa experiência. Ao verem Jesus orando, os discípulos descobrem onde se enraizava a existência do Mestre; e se Ele realizava tantos prodígios, se tinham tanta sabedoria os seus ensinamentos e, se mesmo diante da rejeição, perseguição, mantinha-se sereno e firme, havia uma razão para tudo isso: a sua atitude orante.
Jesus não ensina uma oração, mas ensina um modo de orar que reconhece a grandeza de Deus, o Totalmente Outro cujo nome é Santo, mas que não se isola na sua transcendência distante e inacessível, mas que desce ao encontro das suas criaturas para reinar entre elas, fazendo-as participantes do seu Reino. Suplicando o pão de cada dia, o orante faz memória da experiência do povo libertado, peregrinando no deserto e alimentado pelo maná, o pão descido do céu a cada dia. Mas ao mesmo tempo, toma consciência de que o definitivo pão descido do céu é o próprio Senhor, que a cada dia nos alimenta com a sua Palavra e com a Eucaristia.
Suplicando o perdão por causa dos pecados, o orante se reconhece fraco, limitado, infiel, desobediente. Mas se pede perdão é porque acredita que será perdoado, pois ele mesmo dando o perdão, sendo mal, não pode duvidar que Aquele que é sumamente bom não lhe perdoará.

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Suplicando: “Não nos deixes cair em tentação”, o orante manifesta o seu mais audacioso pedido, ou seja, chegar a ser como o Filho, que obediente ao Pai até à morte, não se deixou convencer pelas propostas do Tentador (Lc 4,1-13). Esse no início da vida pública de Jesus quis desviá-lo do seu caminho, querendo que usasse o seu poder para transformar a pedra em pão, ao invés de alimentar-se com a Palavra do seu Pai; continuando a tentação, quis induzir Jesus a rejeitar o Reino do seu Pai para receber do Tentador toda a glória dos reinos da terra; por fim, usando a Escritura, quis que Jesus desobedecesse ao Pai e caísse na mais terrível das rebeliões: tentar o próprio Deus, invertendo a sua realidade eterna do Filho que obedece ao Pai para tornar-se um filho que manda no Pai.

Portanto, rezar ao Pai (nosso) é aprender a viver como o Filho, é acolher o Reino de Deus com a simplicidade de uma criança que depende do Pai para se alimentar, mas também é ter a humildade de reconhecer o seu pecado, ter coragem de pedir perdão e ter a generosidade de dar o perdão.
A parábola seguinte elucida de forma concreta as atitudes do autêntico orante: a intimidade de um verdadeiro amigo que confia sempre e, por isso, não se constrange de procurar, independentemente das circunstâncias ou das necessidades, pois tem a firme certeza de que será atendido; a humildade para reconhecer suas necessidades e por isso bate insistentemente, porque sabe que a porta onde está batendo é da casa de um amigo; a convicção de que o outro é bom e, mesmo se não fosse seu amigo, daria o que lhe pede, pois sabe que ele tem e, por isso, sabe onde está procurando.
Ao concluir seu ensinamento sobre a oração, Jesus anuncia aquele que será a grande resposta de Deus a quem o reconhece como Pai: o Espírito Santo, o mesmo que guiou Jesus no deserto para não cair nas tentações, o mesmo que o acompanhou durante a sua missão, o mesmo que será concedido à Igreja para poder dizer: “Pai…”

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peandrescjPe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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