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OUT
2016

Solenidade de Nossa Senhora Aparecida

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Solenidade de Nossa Senhora Aparecida (Jo 2,1-11)
Aparecida para auxiliar

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

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A Solenidade de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, neste ano de 2016, reveste-se de um caráter todo especial pois marca o início do Ano Mariano, tendo em vista a celebração dos 300 anos do aparecimento da pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição nas redes dos pescadores no rio Paraíba (1717). A devoção a Maria, a Mãe de Jesus, propugnada por este acontecimento já tem uma longa história de 300 anos. Contudo, não é nem este fato miraculoso nem tantos outros registrados na história que dão a razão do nosso amor para com aquela que o próprio Deus quis como filha predileta, escolheu como mãe incomparável e fez esposa diletíssima. Mas é no próprio evangelho que encontramos a razão suficiente para amá-la com reverência e devoção. Ao celebrarmos esta solenidade, cujo ápice é a Eucaristia, não estamos colocando Maria em lugar de honra segundo critérios humanos, nem muito menos a colocamos no lugar de Deus. Toda legítima e autêntica devoção mariana católica se enraíza na certeza de que Deus a amou por primeiro e a colocou junto ao seu Filho, e deste lugar privilegiado ninguém tem o direito de tirá-la.
O evangelho proclamado nesta solenidade é a grande prova de que o Pai, ao escolher uma mãe para o seu Filho, estabeleceu entre ambos uma relação profunda, permanente e eterna. O sinal das Bodas de Caná anuncia a missão de Jesus cuja obra de salvação se realizará na hora de sua morte e ressurreição. Ele é o novo Adão através do qual Deus renova a sua criação e estabelece a nova e eterna aliança. Assim como Deus não quis que Adão estivesse só, mas deu-lhe uma companheira, a sua mulher Eva; na nova criação, o Pai também não quis que o seu Filho estivesse só, por isso lhe deu uma mulher por mãe. O evangelista João teve o privilégio de contemplar a glória do Deus encarnado (Jo 1,14), e acolher em sua casa aquela que fora a primeira morada do Filho de Deus no mundo e que lhe foi entregue aos pés da cruz. Portanto, João, mais do que ninguém, pode nos falar do mistério que envolvia Mãe e Filho. E já no início do seu evangelho nos coloca diante desse mistério. Todas as vezes que se refere a Maria, prefere chamá-la “a Mãe de Jesus”, e nas palavras do próprio Jesus, “Mulher” (Jo 2,1.3.4.5.12; 18,25-27).

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“Mulher, por que dizes isso a mim? (Tradução do Lecionário). Esta pergunta enigmática de Jesus diante do pedido implícito de Maria: “Eles não têm mais vinho”, torna-se a porta segura para uma verdadeira mariologia. A pluralidade de traduções indica a riqueza e complexidade dessa expressão (BJ: “Que temos nós com isso?”; TEB-Peregrino: “Que queres de mim?”; Pastoral: “Que existe entre nós?”; Ave Maria: “Isso nos compete a nós?”; NT Paulinas: “Que isso importa a mim e a ti?”; CNBB: “Que é isso para ti e para mim?”). Literalmente no grego: “O que a mim e a ti, mulher?” (Tí emoi kai soi, gunai;). Certamente cada uma delas sublinha um aspecto, mas não consegue dizer tudo.
Considerando a linguagem simbólica utilizada por João para falar da Nova Criação, e, portanto, do Novo Adão e da Nova Eva, é preciso ter presente o contexto original (Gn 2,4b-23) para poder compreender melhor estas palavras de Jesus dirigidas a sua mãe. Por que Eva foi criada? Para ser uma companheira-auxiliar de Adão. O autor sagrado dramaticamente, com essa narração didática, declara que o homem sem a mulher seria um ser incompleto, a solidão o tornaria infeliz. Por que o Verbo encarnado recebeu uma mãe? Assumindo em tudo a condição humana, o Filho de Deus quis precisar de uma mãe que lhe fosse companheira, auxiliar, que o ajudasse a se nutrir, a caminhar, a aprender tudo aquilo que é humano. Contudo, a sua presença auxiliadora não foi apenas funcional para os seus primeiros anos de vida, mas permaneceu durante toda a sua vida, até a cruz, não para ajudá-lo a morrer ou a salvar a humanidade, mas para receber dele o último pedido de ajuda em nosso favor: ser mãe dos seus discípulos.

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A auxiliar de Adão tem dois nomes que a identificam: Mulher e Eva. No jogo morfológico e semântico do hebraico percebe-se melhor a íntima relação entre o homem e a mulher (ish: homem; isha: mulher). Na expressão enigmática de Jesus, temos a declaração de que o desígnio eterno do Deus verdadeiro de se tornar verdadeiro homem só foi possível quando encarnou-se numa mulher de verdade. Portanto, assim como Adão exclama de alegria: “Esta sim é osso de meus ossos e carne de minha carne! Ela será chamada mulher”, Jesus revela que é verdadeiramente homem pois a sua mãe é uma mulher. Se a primeira mulher foi chamada de Eva porque é a mãe dos viventes (hebraico: Havvah, da mesma raiz do verbo viver), Maria é a nova Eva porque o seu Filho é o Vivente, o salvador da humanidade e Filho único do Deus vivo. Eva foi tirada de Adão, Jesus nasceu de Maria. Adão sozinho não podia se sentir completo, Jesus não quis realizar a sua missão sozinho, mas contando com a colaboração da humanidade cuja primeira auxiliar é uma mulher: Maria, a sua mãe. Assim como Jesus chama os seus primeiros colaboradores às margens do Mar da Galileia, é muito significativo que a imagem da sua Mãe aparece nas redes de pescadores, renovando o mesmo convite de avançar para as águas mais profundas diante do insucesso da pesca e repetindo o mesmo pedido: “Fazei o que ele vos disser”.

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peandrescjPe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL)

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