02
NOV
2016

Solenidade de todos os Santos e Santas de Deus

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Santidade: a única Bem-aventurança (Mt 5,1-12a)

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Celebrando hoje a Solenidade de todos os Santos e Santas de Deus, a Igreja faz duas grandes proclamações: Deus é verdadeiramente santo e todo ser humano é chamado à santidade. Afirmar a santidade de Deus é denunciar toda forma de ateísmo e, ao mesmo tempo, todo tipo de idolatria. Santidade significa separação que garante identidade, condição fundamental para estabelecer relacionamentos. Deus é o santo por excelência, porque é totalmente Outro, tem uma identidade, é o Criador, aquele que separa a luz das trevas, a terra das águas, e todos os seres que existem, e estes não se confundem nem se fundem uns nos outros. A sua obra criadora (hebraico kadash: separar, santificar) chega ao ápice na separação do Adão primordial em homem e mulher (Gn 1). O ateísmo é a negação de que a criação é obra de Deus e, por conseguinte, do próprio Deus que a criou. Sem referência a Deus, a criação perde sua identidade e sua razão de ser, torna-se caos.

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Afirmar a santidade de Deus é, também, desmascarar todo tipo de idolatria. Os ídolos representam a não criação, eles indicam que os seres perderam a sua identidade e, portanto, tomaram o lugar do seu Criador. As religiões pagãs primitivas, encantadas com a beleza de alguns seres criados e amedrontadas pela sua grandeza, praticavam a idolatria confundindo o sol, a lua, as estrelas e as forças da natureza com a divindade; inclusive alguns homens, declarando-se deuses para os seus semelhantes, confundiram a sua identidade e condição de criatura, tornaram-se ídolos de si mesmos.
Reconhecer a vocação universal à santidade do ser humano é, ao mesmo tempo, recuperar a sua identidade e reafirmar a identidade de Deus. Os santos e santas são testemunhos vivos e convincentes de que é possível encontrar esse caminho. As bem-aventuranças vividas e propostas por Jesus indicam as atitudes fundamentais de quem reconhece a sua vocação à santidade.
As nove bem-aventuranças de Mateus não devem ser compreendidas como virtudes individuais aplicadas a nove categorias de pessoas diferentes, mas todas elas fazem parte de um mesmo perfil, são as diversas exigências de santidade para todo cristão. Bem-aventurado é quem faz esse percurso: partindo do despojamento dos seus bens (1ª. Bem-aventurança) chega até o desprendimento da própria vida (última Bem-aventurança). Portanto, o pobre só é bem-aventurado se tiver fome e sede de justiça; não é feliz quem, sendo manso, não assume a tarefa corajosa de construir a paz. Infeliz é o aflito que não tem sede e fome de justiça, mas só sabe lamentar, e, por isso, não tem forças para lutar. Os puros de coração só encontram a felicidade verdadeira quando praticam a misericórdia, pois é esta que purifica o nosso olhar fazendo-nos enxergar Deus no semelhante. Não pode ser bem-aventurado só quem deseja o Reino de Deus, mas não se dispõe a sofrer por ele, mas foge das perseguições por causa da justiça e tem medo das difamações e injúrias para garantir o seu prestígio neste mundo e a sua vida tão efêmera nessa curta peregrinação rumo à pátria definitiva.

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As Bem-aventuranças servem de porta de entrada do ensinamento e da vida de Jesus, resumem o estilo de vida do Mestre e de quem deseja ser seu discípulo, pois indicam um caminho de absoluta mudança de mentalidade e de atitudes (conversão). De caráter profético, as Bem-aventuranças desqualificam a concepção farisaica da religião que defendia a prosperidade material como bênção e recompensa de Deus (“Bem-aventurados os pobres…os aflitos, os mansos…”). Contrapondo-se à mentalidade do mundo, as Bem-aventuranças anunciam uma nova maneira de buscar a felicidade. Ser bem-aventurado não é viver numa redoma de proteção, isento de dificuldades ou problemas, mas bem-aventurado é quem se dispõe a seguir o caminho que leva à verdadeira vida, ainda que tenha de carregar a sua cruz, mas sabe que o seu destino não é o vazio. Bem-aventurado é aquele que sabe a quem dirigir o seu grito, na certeza de que será ouvido; infeliz é aquele que grita sem saber a quem.
A Santidade como vocação fundamental do ser humano é o caminho que o seu Criador escolheu para ele. Optar por outra estrada é recusar a verdadeira bem-aventurança, é preferir o caos à beleza da criação, é negar a sua condição de separado por Deus e para Ele, e voltar-se para si mesmo, fazendo de si o seu próprio ídolo, mergulhando na confusão de uma criatura que rejeita seu criador e, portanto, perde sua identidade e rumo. Porque Deus nos criou, separou-nos para Ele, nascemos santos. Porém, a vida é a hora de acolhermos ou não esse dom: sermos ou não Dele, abraçarmos ou não a santidade.

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peandrescjPe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL)

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