18
JAN
2017

É preciso pescar diferente!

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III Domingo Tempo Comum
(Mt 4,12-23)
É preciso pescar diferente!

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

O evangelho de hoje mais do que descrever o início da vida pública de Jesus, após o seu batismo e sua preparação no deserto vencendo as tentações, faz-nos refletir sobre um grande mistério: o modo que Deus escolheu para salvar a humanidade ao enviar o seu Filho ao mundo. Certamente não se pode entender essa sua opção, pois sendo um mistério, transcende a nossa capacidade de compreensão, contudo é uma verdade inegável a ser vivenciada. Sendo o Todo-poderoso, Ele quis precisar de nós para realizar o seu plano de salvação. Santo Agostinho dirá, a partir da sua experiência: “Deus, que te criou sem ti, não te salvará sem ti”.
Contando com a ajuda dos seus primeiros discípulos e, ao longo da história, de todas as pessoas que têm dito sim ao seu chamado, Jesus testemunha que o Pai nos salva, considerando-nos capazes de responder com liberdade ao seu apelo. Não nos trata como seres infantilizados, objetos da sua complacência, mas conta com a nossa colaboração, pois nos fez à sua imagem e semelhança.
Para além dos aspectos históricos presentes na narração, Mateus nos introduz num nível mais profundo, cada elemento sublinhado nos faz adentrar numa dimensão simbólica que nos ajuda a perceber o significado da missão salvífica de Jesus. Saindo de Nazaré para estabelecer-se em Cafarnaum, o Mestre não apenas procura um lugar mais estratégico (fronteira) para desempenhar as suas atividades, mas indica qual o significado de sua missão, em hebraico Cafarnaum significa: aldeia de Naum (Nahum: conforto, consolo). Assim se cumpre a promessa de Deus que envia o seu Messias para consolar o seu povo (cf. Is 40,1). Consolar na tradição bíblica significa estar junto aos sozinhos, abandonados, desprezados. Por isso, representa uma luz que desponta, que brilha para “aqueles que estão sentados (jazem como mortos) na região escura da morte”. E este consolo de Deus é apelo de conversão (metanoia: mudança de mentalidade).

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Ao chamar pescadores para o segui-lo, Jesus retoma uma expectativa vetero-testamentária que traduzia a intervenção de Deus para libertar o seu povo no fim dos tempos com a imagem da pesca escatológica (Jr 16,16; Mt 13,47-50). É interessante notar que além de pescadores, tanto Simão e André, como Tiago e João, são irmãos. O Reino de Deus instaura-se à medida que se faz a experiência da fraternidade; enquanto não se reconhece que a dimensão mais profunda que liga os seres humanos é a sua condição fundamental de igualdade, o ser irmão, a experiência de salvação é postergada. Por outro lado, ressaltando que os primeiros chamados têm nome: Simão e André, Mateus evidencia que a vocação é uma resposta de Deus à necessidade do ser humano (Simão: Deus escutou), e essa resposta deve ser dada por um ser humano concreto (André: varão).
Ao dizer-lhes: “Segui-me, e eu farei de vós pescadores de homens”, Jesus lhes apresenta um caminho de verdadeira conversão: seguir a luz e deixar-se transformar por ela. A linguagem simbólica indica que a mudança radical está na finalidade da pesca. Até então lançavam as redes para pescar peixes cujo destino era a morte, a partir de agora seguindo aquele que dá a vida, tornar-se-ão pescadores de homens (anthropous: seres humanos, por extensão de significado, seres vivos), isto é, a missão desses seguidores é conduzir as pessoas para a vida. Se para eles as redes eram importantes para garantir a morte dos peixes, agora deixar-se arrastar pelo convite do Mestre era tornar-se instrumento de libertação. Tiago e João são identificados como “de Zebedeu” (o texto grego não inclui a palavra “filhos”); mais uma vez o evangelista sublinha que a vocação é um dom dado pelo próprio Deus (Zebedeu: hebraico Zabdi’el: Deus deu); mais na frente, Jesus orientará os seus discípulos para que “peçam ao Senhor da messe que envie operários para a sua messe” (Mt 9,37-38). Significativos também são os nomes desses últimos chamados, pois evocam de modo concreto a missão de Jesus como sendo o enviado de Deus para consolar o seu povo (Tiago: Jacó abreviação de Ia’aqob’el: Deus protege; João: Iehohhanam: Javé é misericordioso). Jesus é verdadeiramente aquele que protege, livra da morte o seu povo, e manifesta-lhe a misericórdia do Pai. Por conseguinte os seus seguidores devem partilhar da mesma missão do Mestre.

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Deixar tudo, abandonar as redes e até o pai, são atitudes necessárias para quem toma a decisão de ser um colaborador de Jesus. Ele que não precisa de ninguém e de nada, quer contar com quem também esteja disposto a não se apegar a nada e a ninguém. Se Deus livremente escolheu contar com nossa ajuda, só é possível responder a este apelo se tomarmos a decisão de libertar-nos de tudo aquilo que nos aprisiona a estruturas de morte (redes) para assim podermos ser instrumentos para a vida, anunciando o evangelho do Reino que cura todo tipo de doença e enfermidade humanas.
Crescer na consciência de que Deus conta conosco para a instauração do seu Reino não deve ser motivo de orgulho, mas de gratidão. Se até então a nossa pesca foi infrutífera, levou à morte, Ele nos desafia hoje a pescar diferente, seguindo o Pescador de outros lagos, o seu Filho, numa atitude de permanente conversão.

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peandrescjPe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL)

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