01
JUN
2018

IX Domingo do Tempo Comum

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(Mc 2,23–3,6)
O dia do Senhor, mais que um dia!

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O evangelho deste Domingo não nos apresenta apenas a polêmica em torno da observância do repouso sabático, mas nos ajuda a refletir sobre o verdadeiro sentido do dia consagrado ao Senhor. Exceto para os sabatistas (adventistas, por exemplo), para a maioria dos cristãos o dia do Senhor é indiscutivelmente o Domingo, no qual se celebra a ressurreição de Jesus, o grande acontecimento que marca o início da nova criação; já no Cristianismo Primitivo verifica-se esta praxe e esta convicção (At 20,7; Ap 1,10). Mais do que um dia, a importância do dia consagrado ao Senhor diz respeito ao que nele se realiza, por isso a pergunta de Jesus: “É permitido no sábado fazer o bem ou fazer o mal? Salvar uma vida ou deixá-la morrer?”. Jesus não pergunta em primeiro lugar se é dever religioso cultuar a Deus no sábado ou noutro dia, mas qual a razão fundamental para que o Senhor seja glorificado. O culto a Deus tem sua raiz naquilo que Ele faz, não simplesmente naquilo que nós dizemos a Ele. Santo Irineu resumiu esta verdade ao dizer: “A glória de Deus é o homem vivo, e a vida do homem é a visão de Deus” (Gloria Dei, vivens homo, São Irineu de Lion, Contra as Heresias, IV).

É impossível dar glória a Deus sem evocar, fazer memória, proclamar as suas obras, as maravilhas que Ele realiza em favor do seu povo. Por isso, a primeira liturgia é o louvor da criação, cujas obras alcançam o seu ápice na criação do ser humano. A grande maioria dos salmos proclama as obras de Deus como os protagonistas do seu louvor: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia a obra de suas mãos” (Sl 19). Desprovido de um tal conteúdo, o culto será apenas um palavreado humano bajulador e enfadonho, como denunciava o profeta Isaías: “Que me importam os vossos inúmeros sacrifícios? Diz Javé. Estou farto de holocaustos… Tirai da minha vista vossas más ações…” (1,10-17).

No Antigo Testamento, o sábado, o último dia da semana, favorecia a retrospectiva do que fora realizado e, portanto, constituía o dia da memória por excelência da ação criadora e libertadora de Deus, razão fundamental para cultuá-lo. O culto veterotestamentário não se reduz a palavras ou louvações teóricas a Deus, mas é, antes de tudo, o reconhecimento do bem que Ele concede para a vida do seu povo e, portanto, desses bens se escolhe o melhor para oferecê-lo (primícias da terra e dos animais) como forma de gratidão.

Os dois episódios do evangelho de hoje (arrancar espigas e a cura do homem da mão seca) estão intimamente relacionados não apenas porque se situam num dia de sábado, e, por isso, aparentemente representavam uma transgressão do terceiro mandamento, mas porque ambos dizem respeito às condições e exigências necessárias para que o culto do dia do Senhor tenha sentido e possa se realizar. Os discípulos não estão apenas arrancando espigas para comer (que configuraria uma das 39 atividades proibidas no sábado), mas a ação principal deles é “fazer caminho”. A expressão que encontramos no texto bíblico e que traduzimos geralmente por: “enquanto caminhavam”, literalmente é “começaram a fazer (um) caminho” (grego: erxanto odon poiein). Portanto, simbolicamente, ação dos discípulo é profética, isto é, fazer caminho para Jesus passar. A Lei no Antigo Testamento era justamente entendida como luz para o caminho: “Tua palavra é luz no meu caminho” (Sl 118,105). Enquanto os fariseus e mestres da Lei, dada a interpretação reducionista que faziam da Lei, impediam que ela iluminasse a vida do povo, servisse de guia na estrada para garantir a vida, a liberdade, a comunhão com Deus, o compromisso com a justiça e a prática do bem, os discípulos de Jesus, em dia de sábado, abrem caminho para o Mestre passar, pois Ele é o único intérprete fiel da Lei, uma vez que é a Palavra encarnada, o Filho do Homem, Senhor do Sábado. Se Davi entrou na casa de Deus e fez o que era permitido apenas aos sacerdotes, Jesus é o Sumo e eterno Sacerdote da nova aliança, portanto, Ele tem toda a autoridade.

O episódio seguinte não se dá apenas num sábado, mas na sinagoga. No campo, os discípulos fazendo caminho, arrancam espigas, isto é, têm as mãos sadias e livres. Na sinagoga, se encontra um homem com a mão doente, impedido inclusive de trabalhar (arrancar espigas, por exemplo). Ele é símbolo daqueles que eram escravizados por causa da interpretação da Lei que faziam os mestres do templo. Se nos campos os discípulos são acusados de transgredir o sábado porque estão “trabalhando” e, por conseguinte, estavam impedidos de prestar culto a Deus; mesmo na sinagoga e no dia de sábado, o homem com a mão seca estava impedido de prestar culto a Deus de forma mais plena, inclusive tocando a sua harpa. A sua mão seca evoca a situação do povo no exílio da Babilônia, que chorando à beira do canal dizia: “Se de ti Jerusalém algum dia eu me esquecer, que resseque a minha mão. Que me cole a língua ao paladar, caso eu não me lembre de ti” (Sl 137,6).

Jesus reconduz o doente ao centro: “Levanta-te e vem para o meio”, indicando duas coisas fundamentais: “Levanta-te” opõe-se à posição do povo exilado que lamentava: “À beira dos canais de Babilônia nos sentamos… Penduramos nossas harpas”. Levantar-se também indica a primeira ação para empreender a saída (êxodo) e, assim, fazer caminho como no caso dos discípulos no episódio anterior, e que só com a mão sadia poderiam arrancar as espigas. “Vem para o meio”, até aquele momento ocupavam o centro (o meio da sinagoga) o Livro da Lei e aqueles que a interpretavam. Contudo, a Lei devia ser luz para iluminar o caminho do ser humano, mas se permanecesse longe dele, não cumpriria a sua missão. Por isso, Jesus aproxima o homem da Lei, e vice-versa. Ao estender a mão, o homem não apenas recebe a cura, mas simbolicamente recebe o Livro não dos mestres da Lei, mas de Jesus. E agora poderá verdadeiramente exercer a sua capacidade de louvar a Deus. O homem da mão seca, agora curada, se opõe ao coração duro dos interlocutores de Jesus que tramam um plano de como destruir Jesus. Quando o dia do Senhor se reduz ao cumprimento de uma prescrição legalista, mas não é vivido como expressão de gratuidade diante de tantos bens recebidos, então resseca as relações e destrói o autêntico significado do culto, que não se reduz a um dia, mas se estende pela vida toda.

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