21
AGO
2018

XXI Domingo do Tempo Comum

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(Jo 6,60-69)
“É a Palavra que é dura?!”

Por: Dom André Vital Félix da Silva, SCJ

O evangelista João finaliza o discurso do Pão da Vida com um grande desafio: seguir ou abandonar a Jesus. Depois de ter apresentado o discurso de revelação de Jesus: Pão descido do céu, sua carne e seu sangue, alimento e bebida para a vida plena, chega o momento decisivo de tomar decisões. À medida em que o Mestre testemunha a sua convicção e firmeza no seu caminho rumo à cruz, deixando já de sobreaviso que esse também é o caminho dos que Dele se alimentam, muitos da multidão saciada, entre eles alguns discípulos, mais do que uma incompreensão diante das palavras, escandalizados, reagem ao ouvirem aquela “palavra dura”: “Essa palavra é dura! Quem pode escutá-la?” (6,60).

O adjetivo “duro” em grego se diz “esclerós”, termo originalmente usado na medicina (Hipócrates 460 a.C.) para indicar um endurecimento. Tanto que ainda hoje é utilizado com muitas especificações (Aterosclerose: endurecimento das artérias; esclerose lateral amiotrófica: doença neuro-degenerativa; esclerose múltipla, doença neurológica crônica, etc.).

Daqui podemos intuir o alcance dessa acusação feita, inclusive por alguns discípulos de Jesus. Sem cair em psicologismos simplórios, não podemos deixar de ver nessa cena uma verdadeira projeção psicológica. De acordo com alguns autores, a projeção psicológica, como mecanismo de defesa, acontece quando os sentimentos ameaçados ou inaceitáveis de uma determinada pessoa são reprimidos e, então, projetados em outrem. Em outras palavras, a dureza denunciada, na verdade, não dizia respeito às palavras de Jesus, pois como Ele mesmo afirma: “São espírito e vida” (6,63), mas uma pura projeção da dureza do coração dos seus discípulos, que resistem em aceitar as palavras de vida eterna (6,68).

Um fato bíblico muito ilustrativo do que há pouco foi dito é a conversão de São Paulo (At 9; 22; 26). Sobretudo na última narrativa que o próprio Apóstolo das Gentes faz contando o seu encontro com o Senhor, que lhe diz: “É duro (skleron) para ti dar coices contra o aguilhão” (At 26,14). Já no Antigo Testamento a dureza do coração do povo indicava a sua persistência em permanecer fechado diante do chamado de Deus. Naturalmente o endurecimento do coração fecha os ouvidos para não escutar. Por isso, afirmam alguns dos discípulos e, portanto, traindo-se na sua tal projeção, desabafam: “Quem a pode escutar? (6,60). Se não podem escutar é porque têm os ouvidos cerrados, o coração endurecido, pois persistem na indisposição de conversão.

A própria experiência humana de convivência tem demonstrado que é fundamental para o crescimento pessoal a capacidade de abertura ao outro, numa escuta atenta e livre de preconceitos. Conclusões precipitadas, fruto de uma surdez crônica dos nossos dias, podem conduzir à rejeição daquilo que é vital.

No paraíso, a primeira tentativa da serpente foi justamente convencer Eva que a palavra que o Senhor Deus lhe tinha dito era muito dura: “Vós não podeis comer de todas as árvores do jardim?” (Gn 3,1). Diante desta primeira investida astuta, Eva reage com muita lucidez, e reafirma o mandamento que seu marido recebeu do próprio Deus, essencialmente diferente da interpretação da serpente: “E Javé Deus deu ao homem este mandamento: ‘Podes comer de todas as árvores, exceto da árvore que está no meio do jardim, caso contrário morrerás’” (2,16). Contudo, a serpente não desistiu e distorceu completamente a Palavra de Javé, mudando a morte, como consequência da desobediência ao mandamento do Senhor, em prêmio eterno se Eva obedecesse à sua proposta: “Não, não morrereis! Vós sereis como deuses” (3,4-5). Portanto, a palavra da serpente se coloca como uma palavra suave, atraente, apetitosa em oposição à Palavra de Javé, apresentada pelo réptil como dura, pois é uma terrível proibição, e o pior, o que disse Javé é mentira.

Eis um exemplo típico de quando a Palavra divina é diabolicamente transformada em palavra dura. Assim acontece quando não somos ouvintes atentos. Ouvir-se-á o que não foi dito, e se acreditará naquilo que não é verdade. A grande investida hodierna contra o evangelho e tudo o que a ele diz respeito se faz justamente com esta astúcia. Tenta-se convencer as pessoas (desatentas no ouvir) de que a verdade é mentira e que a mentira é verdade. Cria-se uma mentalidade muito pragmática de que a vida é uma busca de prazer e uma fuga do sacrifício. Prazer torna-se finalidade de vida, mesmo que isso custe o sacrifício irracional da própria vida.

Não são poucos os casos onde adolescentes e jovens são cooptados pela grande mídia e por poderosos grupos econômicos, que tentam convencê-los de que a religião lhes tira a liberdade e que o evangelho impede-os de serem felizes por causa das tantas exigências, leis e formalidades. E, portanto, instaura-se um verdadeiro terrorismo ideológico. A religião é apresentada de forma caricaturada, reduzida a algumas situações pontuais de fundamentalismo religioso. Os que mais criticam e desqualificam o evangelho e seus consequentes ensinamentos e prática pouco conhecem da verdade do evangelho que liberta e restitui a verdadeira vida ao ser humano. É o coração duro que leva a crer que a Palavra é dura! No entanto, o Verbo Encarnado nos declara que é leve o seu fardo, suave o seu jugo (Mt 11,30), pois só Ele tem palavras de vida eterna!

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