25
ABR
2016

VI Domingo da Páscoa

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VI Domingo da Páscoa (Jo 14,23-29)
O amor quer nos habitar

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

Estamos praticamente chegando aos momentos finais do Tempo da Páscoa. Com a Solenidade da Ascensão do Senhor no próximo domingo, abre-se a expectativa da Festa de Pentecostes. Contudo, a experiência litúrgica não nos coloca numa perspectiva linear, como se avançássemos para frente deixando tudo o que vivenciamos para trás. Pelo contrário, por sua natureza mistagógica, a liturgia nos ajuda a vivenciar a perene centralidade do Mistério Pascal, que nos envolve, move e atrai.
A palavra de Jesus proclamada neste VI Domingo Pascal nos garante que o projeto do Pai está se realizando, mesmo diante das forças que insistem em querer impedi-lo: “Não se perturbe nem se intimide vosso coração”. Aos discípulos é confiada a missão de testemunhar, assistidos pelo Advogado (Paráclito), que a obra de Deus em Jesus não ficou incompleta. Apesar da morte do enviado do Pai, uma aparente interrupção da realização do seu projeto, o amor venceu e, portanto, “tudo está consumado” (Jo 19,30). Ressuscitando, Jesus proclama que o sepulcro não foi a morada que o Pai lhe havia preparado para permanecer aqui na terra. A morada preferida do Pai para si e para o seu Filho é o coração de quem os ama, é ali que Deus faz o lugar de sua permanência: “Se alguém me ama… eu e o Pai viremos e nele estabeleceremos morada”. Esta é uma das maiores novidades do cristianismo: a inhabitação da Trindade. É o grau mais alto da experiência espiritual: a vivência da presença íntima da Trindade na alma.
Já no Antigo Testamento o desejo profundo do ser humano era habitar na casa de Deus: “A minha alma tem sede de Deus… minha alma se derrama em mim… em direção à casa de Deus” (Sl 42,2.5). Toda a existência do crente era orientada por um só desejo: “Uma coisa peço ao Senhor e a procuro: é habitar na casa do Senhor todos os dias de minha vida” (Sl 27,4). No horizonte histórico-simbólico de Israel, a Tenda da Reunião e depois o Templo de Jerusalém eram os lugares privilegiados da experiência do estar com Javé na sua presença. Contudo, esta era uma fase pedagógica de preparação para a revelação do verdadeiro lugar onde Deus queria habitar.
O próprio Jesus ao purificar o Templo de Jerusalém no início do seu ministério, segundo a perspectiva joanina, anuncia a verdadeira e definitiva habitação de Deus: “Destruí este templo, e em três dias eu o levantarei… Ele falava do templo do seu corpo” (Jo 2,19.21). O anúncio da definitiva habitação de Deus é feito logo após Jesus ter denunciado a deformação que fizeram da casa de Deus: “Não façais da casa do meu Pai uma casa de comércio”. Mudando a finalidade da Casa de Deus, de casa de oração para covil de ladrões, impede-se o amadurecimento da experiência religiosa que aponta para a preparação do coração humano e da comunidade como o lugar da habitação de Deus. Antes mesmo da edificação do Templo, o rei Davi já fizera uma denúncia de sua própria insensibilidade diante da presença de Deus, e confessa ao profeta Natã: “Vê: eu moro num palácio de cedro, e a arca de Deus está alojada numa tenda! (2Sm 7,2). Na verdade, o rei estava manifestando o seu desejo de construir uma casa para Javé. Contudo, “a palavra do Senhor foi dirigida a Natã naquela mesma noite, e dizia: Vai e dize ao meu servo Davi: eis o que diz o Senhor: Não és tu quem me edificará uma casa para eu habitar” (2Sm 7,4-5).

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Ainda que esta casa, historicamente, tenha sido construída pelo filho de Davi, nas vicissitudes do tempo ela foi destruída, reconstruída e não existe mais, portanto, sinal de que não era a definitiva. João para transmitir as palavras de Jesus aos discípulos na iminência de sua morte, garantindo a sua presença perene neles e entre eles, não utiliza a palavra casa (grego: oikos/oikia), mas prefere o termo “lugar de permanência” (grego: mone, da mesma raiz do verbo mevô, permanecer, ficar na intimidade).
Contudo, esta presença supõe duas atitudes-compromissos da comunidade, pois não é invasora nem se impõe violentamente: “Se alguém me ama, guardará a minha palavra”. O verdadeiro amor (agape) lança raízes que sustentam a comunhão; expressa-se no compromisso de não desistir nunca de ajudar o outro a crescer, pois faz memória permanente do bem recebido: “O Espírito Santo é que vos ensinará tudo e vos recordará tudo o que eu vos disse”.
A morte e a ressurreição de Jesus realizam plenamente o desejo de Deus, pois Ele não quis apenas, ao encarnar-se, permanecer entre nós: “E o Verbo se fez carne e armou sua tenda entre nós” (Jo 1,14), mas, uma vez tendo assumido a nossa carne na sua morte e ressurreição, fazer de nós o seu Corpo: “Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece (faz morada) em mim e eu nele” (Jo 6,56). Assim, como pela ação do Espírito Santo, o Verbo armou a sua tenda entre nós ao encarnar-se na plenitude do tempo, no corpo de Maria, o mesmo Espírito, na morte e ressurreição de Jesus, garante a sua presença permanente na Igreja, o seu corpo. Com a ressurreição, a angústia da solidão e o medo da destruição definitiva do corpo são vencidos, e, por conseguinte, alcança-se a verdadeira paz (Shalom, plenitude dos bens): “Deixo-vos a paz, a minha paz”.

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Deste modo, Jesus evidencia que há uma paz que não é a verdadeira: “Não vo-la dou como o mundo dá”. A paz do mundo é prometida quando se foge da cruz, do sofrimento e da morte, porque não se crê na ressurreição. Contudo, só vencendo o medo de morrer pela vida é que se encontra verdadeira paz. Por isso Ele tem autoridade para dizer: “Paz a vós!”, pois ressuscitou. Porém, as marcas da sua cruz permanecem no seu corpo ressuscitado: “Tendo dito isto, mostrou-lhes as mãos e o lado” (Jo 20,20). As marcas da dor no corpo do ressuscitado são as provas mais convincentes do seu amor; são mais do que sinais de um corpo ferido pelo ódio, macerado pelo sofrimento.
As suas mãos feridas revelam o seu árduo trabalho para erguer a nossa morada, cuja porta é o seu coração traspassado, pelo qual Ele nos faz entrar e sair a fim de encontrarmos vida e vida em plenitude (Jo 10,9). Permanecer Nele é deixar que Ele faça em nós a sua morada, é ser habitado pelo amor.

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peandrescjdeho2Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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