14
JUN
2016

XII Domingo do Tempo Comum (Lc 9,18-24)

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Uma pergunta que só Ele responde!

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Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

No centro da perícope evangélica deste XII Domingo do Tempo Comum está o primeiro anúncio que Jesus faz da sua Paixão, Morte e Ressurreição (segundo anúncio: Lc 9,44s). Entre a confissão de Pedro e a apresentação das condições para seguir a Jesus, Lucas insere este dado fundamental, pois evidencia quem é Jesus. É a sua identidade que o distinguirá de todas as expectativas messiânicas do tempo. Portanto, Jesus não é um Messias revolucionário, revanchista e dominador. Não é um reformador religioso, que pretende dar retoques na instituição oficial, nem muito menos um agitador do povo para promover uma depredação dos símbolos da tradição religiosa do seu povo. Mas é o servo sofredor que, como cordeiro levado ao matadouro, não abriu a boca; é o Filho do homem que, pregado na cruz e não sentado num trono, anunciará que o Reino de Deus se consolida à medida que se exerce a autoridade de um modo novo e, por conseguinte, legítimo, isto é, o serviço: “Estou no meio de vós como aquele que serve” (Lc 22,27).

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A pergunta que Jesus dirige aos discípulos, em dois tempos, não indica uma ignorância em relação à opinião do povo e dos seus discípulos sobre si, mas é uma forma didática (pergunta retórica) utilizada pelo Mestre para que os próprios discípulos sejam instruídos de forma correta e coerente sobre a identidade Daquele cujo caminho e destino eles são chamados a assumir. A resposta do povo (Elias, João Batista, um dos antigos profetas que ressuscitou) exclui a possibilidade de reconhecer Jesus como o Messias (o Cristo) de Deus; no máximo Ele é visto como um profeta que antecede a chegada daquele Messias esperado por Israel, projetado de acordo com os interesses e expectativas de cada grupo. Reconhecer Jesus apenas como um dos profetas ou mesmo como um sábio é fechar-se à novidade trazida por Ele, ou seja, a salvação. Diante dessa visão reducionista da sua pessoa e missão, Ele mesmo denuncia: “Aqui está alguém maior do que Salomão (sábio), aqui está alguém maior do que Jonas (profeta)” (Lc 11,31.32). Por outro lado, a resposta dos discípulos (Pedro): “O Cristo de Deus”, apesar de ser correta teoricamente, ainda não é completa, pois só na cruz não haverá mais ambiguidade em relação ao verdadeiro Messias: “O centurião, vendo o que acontecera, glorificava a Deus, dizendo: ‘Realmente, este homem era justo” (Lc 23,47). Por isso, “Jesus lhes proibiu severamente de anunciar isso a alguém”.

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A unção (grego Christos: ungido) de Jesus não se deu por um ritual, como se fazia com reis no Antigo Testamento, mas é ungido porque o “Espírito Santo está sobre Ele, consagrou-o e enviou-o para evangelizar os pobres, proclamar a remissão aos presos, aos cegos a recuperação da vista, a liberdade aos oprimidos e proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4,16-19).
Exclusiva de Lucas é a informação de que Jesus fez a pergunta aos discípulos num “certo dia quando orava em particular”. A oração é uma constante na vida de Jesus e Lucas faz questão de evidenciar isto. Portanto, este momento no qual Jesus revela que é o Messias, o servo sofredor, está coerentemente sintonizado com as outras circunstâncias importantes da sua vida, onde o marco referencial é a oração; no Batismo: “No momento em que Jesus, também batizado, achava-se em oração” (Lc 3,21); depois que realizava curas: “Eles, porém, permanecia retirado em lugares desertos, e orava” (Lc 5,16); na escolha dos discípulos: “foi à montanha para orar, e passou a noite inteira em oração a Deus. Depois que amanheceu, chamou os discípulos e dentre eles escolheu doze” (Lc 6,12-13); na Transfiguração: “Tomando consigo Pedro, João e Tiago, subiu à montanha para orar. Enquanto orava…” (Lc 9,28.29); quando ensina a orar: “Estando num certo lugar, orando, ao terminar, um de seus discípulos pediu-lhe: ‘Senhor, ensina-nos a orar” (Lc 11,1); predizendo a negação de Pedro, assegura: “Simão, Simão, eis que Satanás pediu insistentemente para vos peneirar como trigo; eu, porém, orei por ti” (Lc 22,31.32); no Horto das Oliveiras na iminência da sua morte: “Afastou-se deles… e dobrando os joelhos, orava” (Lc 22,41); na cruz ora ao Pai: “Pai, perdoai-lhes: não sabem o que fazem” (Lc 23,35); no reencontro com os discípulos (Emaús), pronuncia a oração de ação de graças (bênção): “Tomou o pão, abençoou-o…” (Lc 24,30); e, por fim, despedindo-se dos seus discípulos, mais uma vez pronuncia a oração de bênção sobre eles (Lc 24,51).
Portanto, a oração é momento privilegiado para Jesus se revelar, e experiência imprescindível para nós o conhecermos. Fazendo experiência de encontro com Ele, que nos convida a seguir seus passos, assumiremos a sua vida e missão, ainda que devamos perder a vida por causa Dele. É na oração que fazemos o discernimento do chamado. É na oração que encontramos força para renunciar a tudo o que nos impede de segui-lo. É na oração que reconhecemos que a cruz é a verdadeira seta a orientar nossos passos rumo à plenitude de vida.
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peandrescjdeho2Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL).

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  1. ELISALVA DE FATIMA MADRUGA DANTAS [PRLET***20102] Reply

    Com muita percuciência, Pe. André, nesse texto, ao trazer para nós, leitores, as várias passagens dos evangelhos em que Jesus aparece sempre orando, mostra-nos de forma enfática a força e a importância da oração, seja para melhor fazermos nossas escolhas, para nos protegermos de satanás, para aprendermos a perdoar, para sabermos apresentar ao Pai nossas súplicas e nossos agradecimentos.
    Um belo e educativo texto!
    Obrigada Pe. André!

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