26
OUT
2016

XXXI Domingo do Tempo Comum

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XXXI Domingo do Tempo Comum (Lc 19,1-10)
Zaqueu: o pecador procurado por Deus

31b

Por: Pe. André Vital Félix da Silva, SCJ

A belíssima cena do encontro de Jesus com Zaqueu, exclusiva de Lucas, situa-se na última fase da viagem de Jesus para Jerusalém. É o grande anúncio-síntese de que o evangelho dirigido aos pobres, aos cegos, aos cativos vem se realizando (Lc 4,18-21). Não é uma promessa para o amanhã que nunca chega, mas uma certeza de salvação para o hoje da nossa vida e que se plenificará na eternidade. O nome Zaqueu em hebraico pode significar “justo, puro” ou, sendo a abreviação de Zacarias (Zekarjah), pode ser: “Deus se lembrou”. Ambos significados se complementam e enriquecem a compreensão teológica do fato. Reconhecendo-se pecador e confessando o seu pecado (como o publicano no templo), Zaqueu foi justificado pelo próprio Jesus: “Hoje a salvação entrou nesta casa”. Na perspectiva da teologia de Lucas, Zaqueu é também um sinal concreto de que Deus se lembra do seu povo e hoje vem libertá-lo em seu filho Jesus: “O Filho do homem veio para buscar quem estava perdido”.
Zaqueu é o símbolo do ser humano que, apesar de seus inúmeros pecados, procura a Deus. E nessa sua procura, descobre que é o próprio Deus quem o procura por primeiro. Lucas sublinha que Zaqueu “procurava ver quem Jesus é”, e concluiu a perícope com a afirmação de Jesus: “O Filho do homem veio procurar e salvar o que estava perdido”. Tanto para Zaqueu como para Jesus a ação principal é apresentada com o verbo procurar (grego zeteo: procurar, buscar, querer fortemente; este verbo também se encontra na parábola da dracma perdida: a mulher que procura diligentemente a moeda: Lc 15,8). Aqui encontramos a realidade mais concreta da salvação, pois esta é fruto do encontro da vontade e do empenho do ser humano de procurar Deus e o compromisso de Deus de não desistir do ser humano, pois está sempre à sua procura, desde a queda de Adão e Eva (Gn 3). Essas duas vontades se realizam no encontro com o Filho do homem.

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Com a Encarnação, Deus se deixou ver no seu Filho, Ele é a imagem do Deus invisível (Cl 1,15). Se no paraíso, depois do pecado, Adão e Eva foram se esconder para não serem vistos por Deus, na nova criação inaugurada por Jesus, o homem é encorajado a se apresentar diante de Deus sem máscaras e a sair dos seus esconderijos. Se o velho Adão procurou esconder-se de Deus por trás das árvores, agora quem deseja ser um novo homem precisa aparecer diante de Deus como é: publicano (pecador), baixa estatura (incapaz por si mesmo). Zaqueu sobe na árvore para ver quem é Jesus, mas surpreende-se ao ser visto primeiro pelo próprio Senhor que lhe diz que não é do sicômoro que ele verá quem é Jesus; é preciso descer depressa dali para seguir o Senhor que se encaminha para subir noutra árvore, a árvore da vida, a sua cruz. Ali Zaqueu saberá quem de fato Jesus é. Não é trepado no sicômoro que ele descobre quem é Jesus, mas é vendo-o pregado na cruz que saberá qual o preço da salvação que naquele dia entrou na sua casa.

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Certamente o desejo de Zaqueu de ver Jesus foi provocado pelo testemunho de tantas pessoas que já tinham feito a experiência do encontro com Ele. Recentemente, ao aproximar de Jericó, Jesus tinha curado um cego que estava mendigando, sentado à beira do caminho (Lc 18,35-43: perícope anterior à de Zaqueu). Poderíamos dizer que este fato serve de introdução para o encontro de Jesus com Zaqueu. Assim como o queria “ver de novo”, Zaqueu queria ver Jesus. Se para o cego reaver a vista era a condição fundamental para seguir Jesus pelo caminho, ver Jesus para Zaqueu foi o primeiro passo para a sua conversão. O cego, repreendido pela multidão, gritou mais forte para que Jesus o visse, Zaqueu, impedido pela multidão, procura um lugar mais alto para ver o Senhor. A fé do cego foi declarada por Jesus como a causa da sua cura e salvação. A mudança de Zaqueu foi declarada por Jesus como testemunho de que, de fato, ele tinha feito a experiência do perdão pois a salvação tinha entrado na sua casa. O encontro de Jesus com o cego marcou o início de uma nova vida, pois este decidiu livremente seguir os passos de Jesus glorificando a Deus. Zaqueu, por sua vez, não vê apenas quem é Jesus, mas vê o que significa acolher em sua casa a salvação, por isso: “De pé (posição do cego curado que segue Jesus no caminho, até então sentado à beira da estrada) disse ao Senhor: ‘Senhor, eis que (literalmente no grego: idou, imperativo do verbo ver) eu dou a metade dos meus bens aos pobres e se defraudei alguém, restituo-lhe o quádruplo”. A prática da justiça foi o sinal mais claro de que, de fato, ele viu Jesus. Ademais, Zaqueu viu como responder a questão fundamental da existência: “Que devo fazer para herdar a vida eterna?”. A conversão de Zaqueu foi a concretização do que Jesus já havia proposto ao jovem rico que, por sua vez, preferiu ficar com a sua riqueza, não dividi-la com os pobres e, por isso, impedido de seguir a Jesus, consequentemente, permaneceu cheio de tristeza (Lc 18,18-23). Zaqueu representa todo pecador que, apesar de suas misérias (baixa estatura), procura Deus (subir na árvore) e se surpreende sendo procurado por Ele (descer depressa para acolhê-Lo em sua casa). O encontro com o Senhor o torna capaz de repartir seus bens com os pobres porque vê Jesus neles.

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peandrescjPe. André Vital Félix da Silva, SCJ.
Mestre em Teologia Bíblica pela Pontifícia Universidade Gregoriana.
Professor nos Seminários de Campina Grande-PB, Caruaru-PE e João Pessoa-PB.
Membro da Comissão Teológica Dehoniana Continental – América Latina (CTDC-AL)

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